<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Cibermundos</title>
	<atom:link href="http://cibermundos.net/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://cibermundos.net</link>
	<description></description>
	<lastBuildDate>Sat, 05 May 2012 11:36:36 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.2.1</generator>
		<item>
		<title>Blade Runner &#8211; A Nostalgia do Futuro</title>
		<link>http://cibermundos.net/cibercultura/blade-runner-a-nostalgia-do-futuro/</link>
		<comments>http://cibermundos.net/cibercultura/blade-runner-a-nostalgia-do-futuro/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 05 May 2012 11:15:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Cyberpunk]]></category>
		<category><![CDATA[Blade Runner]]></category>
		<category><![CDATA[Ridley Scott]]></category>
		<category><![CDATA[Vangelis]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://cibermundos.net/?p=367</guid>
		<description><![CDATA[Em 1968, Philip K. Dick, escritor norte-americano, nascido em Chicago em 1928, escreveria uma obra que viria a tornar-se num dos ícones da literatura de ficção científica, constituindo-se como objecto de culto entre os amantes desse género literário. A obra, intitulada Do Androids Dream Of Electric Sheep? (Sonham os Andróides com Carneiros Eléctricos?), deu origem, em ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 1968, Philip K. Dick, escritor norte-americano, nascido em Chicago em 1928, escreveria uma obra que viria a tornar-se num dos ícones da literatura de ficção científica, constituindo-se como objecto de culto entre os amantes desse género literário. A obra, intitulada <em><a href="http://www.philipkdick.com/works_novels_androids.html" target="_blank">Do Androids Dream Of Electric Sheep</a>? </em>(Sonham os Andróides com Carneiros Eléctricos?), deu origem, em 1982, à estreia de uma produção cinematográfica realizada por <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000631/" target="_blank">Ridley Scott</a>: <a href="http://www.imdb.pt/title/tt0083658/" target="_blank"><em>Blade Runner</em></a>. O filme, ele próprio um caso de sucesso que paulatinamente foi ganhando forma, foi objecto de transposição para várias edições em livro, como é um exemplo a edição em Portugal do livro <em>Blade Runner</em> <em>Perigo Iminente</em>, nº 43 da série de Ficção Científica das edições de bolso da Europa América.</p>
<p><a href="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/do-androids-dream-of-electric-sheep.jpg"><img class="size-medium wp-image-1247 alignleft" style="margin: 10px;" title="do-androids-dream-of-electric-sheep" src="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/do-androids-dream-of-electric-sheep.jpg?w=186" alt="" width="186" height="300" /></a><a href="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/pkd_do_androids.jpg"><img class="size-medium wp-image-1249 alignnone" style="margin: 10px;" title="PKD_DO_ANDROIDS" src="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/pkd_do_androids.jpg?w=186" alt="" width="186" height="300" /></a></p>
<p><a href="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/cov-androids-200.jpg"><img class="size-medium wp-image-1248 alignleft" style="margin: 10px;" title="cov-androids-200" src="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/cov-androids-200.jpg?w=198" alt="" width="198" height="300" /></a><a href="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/5601072350434.jpeg"><img class="size-medium wp-image-1253 alignnone" style="margin: 10px;" title="5601072350434" src="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/5601072350434.jpeg?w=192" alt="" width="192" height="300" /></a></p>
<p><a href="http://www.philipkdick.com/" target="_blank">Philip K. Dick</a> insere-se numa corrente literária, algo desprezada, que tem vindo a constituir a base de uma literatura<a href="http://www.cyberpunkreview.com/what-is-cyberpunk/" target="_blank"><em> cyberpunk</em></a> que conta com nomes como <a href="http://www.williamgibsonbooks.com/" target="_blank">William Gibson</a>, cuja obra emblemática <a href="http://www.williamgibsonbooks.com/books/neuromancer.asp" target="_blank"><em>Neuromancer</em></a> é reconhecida como percursora deste movimento. Esta sub-categoria da ficção científica, de que faz parte a obra <em>Do Androids Dream Of Electric Sheep?</em>, lança um olhar fatalista e distópico sobre a interacção entre tecnologia e humanidade, estabelecendo uma relação de causa/efeito no caos que se vai instaurando no caldo social, na dependência desmedida do homem em relação à máquina, na reificação do indivíduo. Assim, deste movimento nasce um olhar niilista, uma cultura <em>cyberpunk</em> distópica que caminha em direcção a um mundo obscuro e sinistro em que a máquina pretende substituir o homem. Nasce um campo aparentemente irreconciliável entre a tecnociência e a religião, entre as visões positivista e metafísica do mundo, acentuando o carácter dualista da nossa sociedade ocidental que, desde Descartes, nos vem apresentando a figura de um demónio maligno. Um monstro que parece ser necessário para uma reconciliação do homem com a Natureza e com o Artifício. Nesta organicidade de todo o humano, somos caracterizados pela complexidade, pelo contraditório. Vivemos na <em>megapolis</em> que caminha para o &#8220;futuro negro&#8221; e para a decadência. Tomamos consciência da complexidade social, cultural e científica das paisagens dos nossos tempos. Mas a arte <em>cyberpunk </em>é também uma arte moral, preocupada com as imperfeições, as falhas, as duvidosas escolhas éticas.</p>
<p><a href="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/pkdick.jpg"><img class="size-full wp-image-1559 " title="pkdick" src="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/pkdick.jpg" alt="" width="500" height="698" /></a>Philip K. Dick</p>
<p>Entender a literatura de Dick e, posteriormente, o filme <em>Blade Runner</em>, implica conhecer um pouco da história de um escritor que viveu uma vida atribulada, atormentada pela morte da sua irmã gémea, poucos dias (40) após o nascimento, que se torna obsessão durante os anos que o fizeram adulto, fazendo-o estabelecer com ela uma permanente relação espiritual (Sammon, 1996). Philip K. Dick cedo se deixa influenciar pela literatura fantástica, pelos <a href="http://www.pulpmags.org/"><em>pulp magazines</em></a>, como são exemplo a <em>Unknown </em>e a<em> Astounding</em>. Frequentou apenas um ano a universidade e foi um autodidacta. A necessidade de subsistência obrigou-o a escrever de uma forma constante. Para tal, socorreu-se das anfetaminas e dos ácidos.  Aumentou a sua produção literária de um modo invulgar, mas viu a factura devolver-lhe graves problemas físicos e emocionais. Uma visão mística mudaria a sua vida. Um fenómeno que nunca conseguiu explicar e que fez com que vivesse duas épocas em simultâneo: o passado (a era do império romano) e o presente. Este facto, que o levaria a escrever uma interminável obra (<a href="http://www.philipkdick.com/new_exegesis.html" target="_blank"><em>Exegese</em></a>), revela-se um dado importante para a compreensão do seu livro <em>Do Androids Dream Of Electric Sheep?</em>. A grande paixão que nutria pela música clássica &#8211; patente em <em>Do Androids Dream of Electric Sheep? </em>(grande parte da acção ocorre numa Ópera) &#8211; denuncia uma ponte com o passado, quiça uma ponte com a sua irmã. Não raramente a música surge como essa ligação espiritual a alguém que se perde. Curiosamente, Philip K. Dick abraça o passado e o futuro como uma grande ruína que o vai consumindo, contribuindo para uma obra esotérica, enigmática e carregada de simbolismos.</p>
<p><a href="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/uknown_astounding.jpg"><img class="size-full wp-image-1561  alignleft" title="uknown_astounding" src="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/uknown_astounding.jpg" alt="" width="220" height="310" /></a> Primeiro número de Unknown (capa por H. W. Scott)<a href="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/05/asf_0001.jpg"><img class="size-medium wp-image-1678 " title="ASF_0001" src="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/05/asf_0001.jpg?w=214" alt="" width="214" height="300" /></a>Astounding, Jan 1930</p>
<p><em>Do Androids Dream Of Electric Sheep?</em> é um trabalho dramático, uma reflexão sobre a metamorfose do indivíduo numa sociedade que caminha para uma saída puramente tecnológica. Uma sociedade cada vez mais híbrida. Esta diversidade que procuramos evidenciar, que temos urgência em denunciar, e que se manifesta e exprime na cibercultura através das figuras pós-humanas &#8211; os <em><a href="http://project.cyberpunk.ru/idb/cyborgs.html" target="_blank">cyborgs</a> -</em>, que em <em>Blade Runner</em> (assumimos aqui o filme de Scott como a incorporação do legado de Dick) são representados pelos <em>replicants </em>Nexus-6. Estas máquinas da cibercultura representam o mesmo papel dos bestiários da Idade Média. Dão a ver o diferente, o exótico, o bárbaro. Dão a vê-lo com o intuito de melhor o domesticarmos. Mas poderemos nós ver um futuro em <em>Blade Runner</em> que possa ser, igualmente, esta re-interpretação do passado, esta urgência em justificar todo o mal que vai sendo deixado para trás?</p>
<p>Philip K. Dick procura diferenciar o ser humano autêntico da máquina reflexiva (andróide). Para ele, andróide é metáfora de pessoa fisiologicamente humana, mas com comportamento desumano. Esta obsessão pelo demente não pode ser dissociada da experiência da 2ª Guerra Mundial. Para Dick, os Nazis eram um grupo demente. Mentes de tal forma emocionalmente defeituosas que a palavra <em>humano</em> não se lhes aplicava. Esta frase, retirada dos diários das <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Schutzstaffel" target="_blank">SS</a> escritos na Polónia, foram uma importante fonte de perturbação para Philip K. Dick:</p>
<blockquote><p>We are kept awake at night by the cries of starving children (Sammon, 1996: 16).</p></blockquote>
<p>Segundo Dick, esta demência alastrar-se-ia a todo o mundo após a 2ª Guerra Mundial, tornando a sociedade cada vez mais virada para a violência e a falta de ética. Para que possamos melhor entender a génese da sua obra <em>Do Androids Dream of Electric Sheep?,</em> deve referir-se que a mesma foi escrita mesmo a meio da Guerra do Vietname.</p>
<p><a href="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/nexus6.jpg"><img class="size-full wp-image-1554 " title="nexus6" src="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/nexus6.jpg" alt="" width="445" height="348" /></a>Roy Batty, um Nexus-6, papel desempenhado por Rutger Hauer</p>
<p><strong>BLADE RUNNER &#8211; PERIGO IMINENTE</strong></p>
<p>A adaptação do livro para filme vê os seus primeiros contornos serem desenhados em 1969, um ano após a publicação da obra escrita. Os primeiros interessados foram o realizador Martin Scorsese e o crítico Jay Cocks. Ficaram encantados com as paisagens morais e visuais da narrativa distópica, da mensagem subjacente em cada linha de texto.<em> </em>Contudo, não passou de um namoro que não produziu frutos. Mais tarde, em 1974, Robert Jaffe, filho do californiano Herb Jaffe, CEO da produtora Herb Jaffe Associates, escreve um argumento para adaptar o livro de Dick ao grande ecrã. Depois de Dick o ter lido, a única palava que lhe surgiu foi &#8220;horrível&#8221;. Após várias tentativas de melhorar o argumento, com a ajuda do próprio escritor, o projecto vê as suas pretensões gorarem-se em 1977. Nesse mesmo ano, um outro homem interessa-se pela obra e começa um trabalho que será o responsável pela produção e realização de <em>Blade Runner</em>, na versão de Ridley Scott. O seu nome é <a href="http://www.imdb.pt/name/nm0266684/" target="_blank">Hampton Fancher</a>.</p>
<p><a href="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/hampton_fancher.jpeg"><img class="size-full wp-image-1565 " title="hampton_fancher" src="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/hampton_fancher.jpeg" alt="" width="174" height="289" /></a>Hampton Fancher</p>
<p>Apesar da fidelidade inicial de Fancher em relação à obra de Dick, o primeiro guião sofreu numerosas modificações, fruto do reduzido orçamento inicial:</p>
<blockquote><p>I didn&#8217;t really create much of a world [in the initial screenplay]. You could have pretty much taken my first draft and put it on a (theatrical) stage. There weren&#8217;t many exterior scenes, there wasn&#8217;t much hardware. It was basically a small drama, [one originally projected to be] done for $9 million (Sammon, 1996: 36).</p></blockquote>
<p>Mais tarde, talvez motivado por profundas preocupações ecológicas, Fancher faz com que argumento vá sofrendo consideráveis alterações, desviando-se da obra original. Destacamos apenas algumas:</p>
<ul>
<li>As cenas passadas em San Francisco transferem-se para Los Angeles</li>
<li>O papel de Iran (mulher de Deckard) dilui-se num decréscimo de importância</li>
<li>Rachel, a namorada de Deckard, ganha um protagonismo inusitado</li>
</ul>
<p><strong>UMA VISÃO DISTÓPICA</strong></p>
<p>Nesta visão distópica do futuro, o &#8220;Perigo Iminente&#8221; é o perigo da replicação. Tudo passa a ser possível num mundo que se vê desprovido de Deus: &#8220;Se Deus morreu, então tudo é possível&#8221;, anunciava Dostoievsky em <em>Crime e Castigo</em>; em <em>Blade Runner</em>, aparentemente, &#8220;Se tudo é possível, então Deus morreu&#8221; (Rosa, 2007: 7). Esta forma de religiosidade esteve sempre presente, de alguma forma, na obra de Philip K. Dick. Como acentua Herlander Elias, &#8220;(&#8230;) há um perigo subentendido no filme, o de uma tecnologia capaz de gerar humanos tão ou mais genuínos que os próprios humanos [...], algo que  não ficou resolvido na modernidade, a visão negativa de um futuro, ainda assim romântico (&#8230;)&#8221; (Elias, 2007).</p>
<p>Deus morre porque Dr. Tyrell (o &#8220;pai&#8221; dos andróides) é morto pelo líder dos <em>replicants</em>, Roy Batty. E &#8220;deus&#8221; é a palavra que existe para designar o que existe de mais transcendental (Cavalli, 2006). Roy Batty é quem faz a mediação entre duas consciências, serve como lembrança do que foram os homens no passado, na busca do seu Deus. Assim, Deckard é o sujeito pós-moderno, com identidades que mutam de acordo com o momento. Roy é o sujeito sociológico moderno, com um &#8220;eu&#8221; definido artificialmente e dotado de razão.</p>
<p><iframe width="960" height="540" src="http://www.youtube.com/embed/J_hYs1jBy8Y?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Há um projecto da ciência que importa trazer à luz da temática: o do robô como projecto epistemológico (Elias, 2007). Dick, no seu ensaio intitulado <em>O andróide e o humano</em>, diz: “(…) o que define andróide e humano não é a sua origem, maquínica ou orgânica, mas sim as acções, rígidas ou empáticas, perante os seus semelhantes. Um andróide pode agir humanamente tanto quanto um humano [...] pode comportar-se como um andróide” (Dick, 2006: 13-14).  Ora, o que está em causa em <em>Blade Runner</em> é o facto de os <em>replicants</em> serem sempre réplicas que estão tecnologicamente acima dos humanos e que têm como objectivo tornar o mundo num habitat ciborgue. E como Dick sugere em <em>O andróide e o humano</em>, estamos perante um campo do real por via da diluição de fronteiras. Se aquilo que define um andróide e um humano são as suas acções, poderá um andróide ser mais humano do que o próprio humano? Aparentemente, é este dilema ontológico que <em>Blade Runner</em> não resolve, pois para que os <em>replicants</em> possam ser mais humanos do que os próprios humanos falta-lhes tempo de vida, falta-lhes <em>lifespan</em> (Elias, 2007: 232).</p>
<blockquote><p>Existem no Universo coisas frias e desumanas a que dei o nome de &#8216;máquinas&#8217;. O seu comportamento assusta-me, especialmente se imitam o comportamento humano tão bem que me deixam com a sensação desconfortável de que estas coisas estão a tentar fazer passar-se por seres humanos sem o serem (Dick, 2006: 77).</p></blockquote>
<p><iframe width="800" height="600" src="http://www.youtube.com/embed/KIBKbhrniUQ?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p><strong><em>Rachel’s Song (nunca foi usada no filme; era suposto ser usada nas cenas em que Rachel via crescer as suas dúvidas sobre a identidade; em sua vez foi usado o tema “Memories of Green”)</em></strong></p>
<p><strong>A CIDADE DA MÁQUINAS</strong></p>
<p>Em <em>Blade Runner</em>, Los Angeles é uma cidade de máquinas, uma cidade que deixou de possuir instrumentos capazes de funcionar em função do homem. Na cidade do futuro que é Los Angeles em 2019, são as máquinas que substituem os humanos. Na Los Angeles do século XXI, a tecnologia não foi capaz de resolver os problemas do homem. Como poderão réplicas de humanos, feitos à sua imagem, resolverem eles próprios problemas que os seus criadores não foram capazes de resolver? Este paradoxo encerra toda a tecnologia, ou melhor, o seu uso. O que fazemos com ela. Para onde caminhamos, com as máquina do nosso descontentamento? Que máquinas podemos construir para fazer de nós melhores humanos, os <em>replicants</em>, o Nexus-6, ou alguma versão mais evoluída? E se os <em>replicants</em> de <em>Blade Runner</em> têm como missão salvar o mundo, porque vivem apenas 4 anos?</p>
<blockquote><p>A Los Angeles do filme é no fundo um &#8216;lugar-máquina&#8217;, um território ciborgue simultaneamente real e virtual, orgânico e máquina, sano e esquizóide, uma arena de multiplicidades, de construções de desconstruções (Elias, 2007: 234).</p></blockquote>
<p><iframe width="800" height="600" src="http://www.youtube.com/embed/IPe52A0k06M?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Tornámo-nos mestres e possuidores da Natureza, diz Descartes. O homem constitui-se homem ao dela retirar-se. Em <em>Blade Runner</em> tudo termina em extermínio. Não só a Natureza se vê destruída, mas também o homem se vê destruído por ele próprio, pela técnica que o corrói. A própria técnica se auto-anula: <em>Deckard</em> (uma máquina) &#8216;mata&#8217; a <em>replicant strip-teaser</em> (outra máquina) (Elias, 2007: 235). Há um carácter predatório incontornável que faz de <em>Blade Runner</em> uma visão transversal da natureza humana verdadeiramente notável. Precisamos de monstros para nos sentirmos mais humanos, diz José Gil (Elias, 2007 : 236).</p>
<p><em>Blade Runner</em> passa-se num ambiente poluído por um conflito nuclear, um lugar onde a poeira radioactiva é omnipresente. Esta substância destrói a maior parte da vida animal. Muitos humanos morrem ou ficam mentalmente incapacitados. A população restante caminha para a esterilidade. Alguns homens preservam a virilidade e deixam a Terra em direcção a planetas saudáveis. <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Rick_Deckard" target="_blank">Rick Deckard</a>, o polícia &#8211; o <em>blade runner</em> &#8211; é um dos infelizes que permanece no inferno poeirento. A sua função é aniquilar os andróides (&#8220;andys&#8221; no livro) que tentam misturar-se com os seres humanos. Os andróides estão equipados com todas as emoções humanas excepto a empatia. Foram desenhados para funcionarem como armas durante o conflito nuclear, mas viram as suas funções serem reprogramadas para se tornarem os obreiros do programa de colonização. Deckard não deverá deixar que os andróides tentem ocupar o lugar que pertence aos humanos. Deverá aniquilá-los. Ao fazê-lo, estará ele a tornar-se num andróide?</p>
<p>Mas o mais interessante de <em>Blade Runner</em> é o facto de nós, os humanos, representarmos a faceta pós-industrial e niilista da sociedade. Nós somos a solidão, o individualismo que deixa por terra as reivindicações do passado. A luta perdeu o seu carácter militante. São agora os andróides quem representa os valores das luzes, a racionalidade, a luta pelos ideias. Os humanos são as pequenas narrativas, os andróides as grandes. Os andróides simbolizam o romantismo, os humanos a decadência. Uma inversão no caminho de reificação do homem que o torna frio, desolado, descrente, e um paradoxo, pois os andróides são construídos à sua imagem. Esta inversão temporal, que abre uma brecha na linearidade, faz com que pensemos seriamente na direcção que o nosso rumo leva&#8230;. e isto nos inícios da década de 80 do século passado era já uma preocupação. O andróide é a única saída para a reconstrução e nós, os <em>Deckards</em> deste mundo, aniquilamos a sua investida. Mas, se tecnologia significa o funesto progresso &#8211; a grande premissa de base de <em>Blade Runner</em> -, como podem os andróides, filhos desta, simbolizarem a esperança? É esta inversão de lógicas que faz de <em>Blade Runner</em> um exercício de reflexão insofismável e delicioso. Um conflito narrativo que coloca a resignação em confronto com a luta pela vida. E os sinais dessa resignação são evidentes: o alcoolismo de Deckard, a depressão e solidão de J.F.Sebastian.</p>
<p><iframe width="800" height="600" src="http://www.youtube.com/embed/Cg0cmhjdiLs?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p><em><strong>Uma das peças mais assustadoras, convincente no que diz respeito à mistura de film noir e de Sci-Fi distópica</strong></em></p>
<p>O filme tem resistido ao tempo, parecendo hoje beneficiar de um reconhecimento que à época não fora possível, muito devido ao maravilhoso trabalho de Ridley Scott. O seu filme, realizado em plena década de 1980, ainda hoje é actual, comovedor e beneficia de uma autêntica legião de seguidores incondicionais.</p>
<p><a href="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/05/ridley_scott.jpg"><img class="size-full wp-image-1623 " title="ridley_scott" src="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/05/ridley_scott.jpg" alt="" width="455" height="580" /></a>Ridley Scott</p>
<p><strong>UMA OBRA DENTRO DE OUTRA OBRA</strong></p>
<blockquote><p>The music in Blade Runner is so devastatingly beautiful. Yet at the same time it is many other things. Tacky, ominous, haunting, sad. Vangelis did an extraordinary job; his score became a major character (Rutger Hauer cit. por Sammon, 1996: 267)</p></blockquote>
<p>Cinematograficamente, uma banda sonora original faz parte do processo de pós-produção. Aí, onde se decidem as sequências, onde se decidem os planos, também se decide o <em>score</em> musical. <em>Blade Runner</em> tinha a sua pós-produção agendada para Julho de 1981 e estavam previstas 34 semanas de trabalho. Como refere Sammon, uma das fases mais importantes de um filme:</p>
<blockquote><p>It&#8217;s been said many times that a motion picture is made or broken in the editing room. Blade Runner was no exception (Sammon, 1996: 268)</p></blockquote>
<p>O argumento de <em>Blade Runner</em> é uma história muito difícil de contar. A complexidade da sua mensagem requer uma banda sonora capaz de transmitir toda a atmosfera psicológica envolvida em cada uma das cenas. Ridley Scott recorreu à ajuda de <em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Voice-over" target="_blank">voice-over</a> </em>para explicar certas cenas, mas mesmo assim foi insuficiente e até criticado. Quem poderia escrever um <em>score</em> à altura de tal responsabilidade?</p>
<p><iframe width="800" height="600" src="http://www.youtube.com/embed/UtET6tPJPyw?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p><strong>EVANGELOS O. PAPATHANASSIOU (VANGELIS)</strong></p>
<p><a href="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/vangelis.jpg"><img class="size-full wp-image-1574" title="Vangelis" src="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/vangelis.jpg" alt="" width="500" height="343" /></a>Evangelos O. Papathanassiou</p>
<p><a href="http://elsew.com/" target="_blank">Vangelis</a> estava longe de ser hipótese. Terry Rawlings, responsável pela edição de som de <em>Blade Runner</em>, diz: &#8220;I never thought that we were going to use Vangelis to start with&#8221; (Sammon, 1996: 272). Muita música tinha sido ouvida, incluindo a de Jerry Goldsmith. Os primeiros contactos com Vangelis foram estabelecidos quando este compunha um <em>score</em>, vencedor de um Óscar, para o filme <em>Chariots of Fire</em> (1981). Quando Vangelis viu um extracto &#8220;em cru&#8221; de <em>Blade Runner</em> ficou emocionado e aterrorizado. Emocionado pela beleza do filme, aterrorizado pelo facto de o filme prever um futuro assustadoramente plausível, futuro esse que Vangelis acreditava vir a ser possível.</p>
<p>Evangelos O. Papathanassiou (Vangelis) nasceu em 1943, em Volos, na Grécia. Cresceu em Atenas. Autodidacta, incapaz de ler música, compôs a primeira peça para piano aos 4 anos. Em 1968, após a instauração da ditadura militar no seu país, vai para Paris. Aí, é um dos fundadores da banda <em>Aphrodite&#8217;s Child</em>. A canção mais popular da banda, <em>Rain and Tears</em>, se for invertida, revela uma feliz coincidência com uma famosa expressão de Roy Batty (personagem de <em>BR</em>): &#8220;Tears in Rain&#8221;.</p>
<p><iframe width="960" height="540" src="http://www.youtube.com/embed/a_saUN4j7Gw?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>A reputação de Vangelis como compositor de música electrónica era grande. Ele era um mestre do sintetizador. Durante os anos de 1970, compôs várias peças para programas de televisão e filmes franceses. Colaborou com Frederic Roussif, compondo a música para <em>Apocalypse Des Animaux </em>e <em>Opera Sauvage</em>. Em meados de 1970 vai para Londres, onde constrói um estúdio de 24 pistas, o Nemo Studios. Foi nesse estúdio que Vangelis compôs a Banda Sonora Original de <em>Blade Runner</em>.</p>
<p><a href="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/nemo_studios.jpg"><img class="size-full wp-image-1576" title="nemo_studios" src="http://comartecultura.files.wordpress.com/2012/04/nemo_studios.jpg" alt="" width="478" height="233" /></a>Vangelis, rodeado de sintetizadores, no Nemo Studios</p>
<p>A primeira preocupação de Vangelis foi absorver o &#8220;sentido&#8221; do filme. Posteriormente, conversou com o Ridley Scott para perceber se era capaz de corresponder às suas expectativas. Vangelis ficou imediatamente impressionado com <em>Blade Runner</em>. Estabeleceu-se logo aí um vínculo emocional muito forte. Que tonalidades melhor serviriam o filme?</p>
<p>Vangelis escolheu um registo que pode ser apelidado de &#8220;futuristic nostalgia&#8221; (Sammon, 1996). Uma vertiginosa mistura de romantismo ousado, nefastos ruídos electrónicos, delicadas matizes celestiais, blues de sarjeta e uma melancolia de cortar a respiração. O <em>score</em> de Vangelis transformou-se num dos mais notáveis e tristes registos para um filme de ficção científica.</p>
<p>Entre 1978 e 1982, Vangelis estava fascinado com instrumentos de percussão. Experimentava misturá-los com sintetizadores para conseguir um efeito acústico-electrónico. Sinos e campainhas estavam por todo o lado. Esses instrumentos de percussão tornaram-se parte integrante da música de <em>Blade Runner</em>.</p>
<p>Vangelis tinha que lidar com um espaço demasiado aberto que Ridley Scott lhe legara. Uma mistura de passado e futuro, um mundo onde o novo e o surpreendente estava de costas voltadas com o que restava, a essência da nostalgia, aquilo que antes era popular na Terra.</p>
<p><strong>UM LONGO PERCURSO</strong></p>
<p>Normalmente, a produção de uma banda sonora de um filme é um processo caro e rápido, envolvendo um grande número de intervenientes. No caso de <em>Blade Runner</em>, é Vangelis quem compõe, arranja, produz e interpreta. Primeiro improvisava a melodia básica de cada faixa, gravava-a em fita magnética, e refinava-a acrescentando outros sons e outras texturas por cima da faixa inicial (imitando o processo de <em>layering</em> que Scott usava com a matéria-prima do <em>footage</em>). A massa musical daí resultante era um produto trabalhado e reformulado, tal como um escultor que esculpe a sua obra. Durante esse processo produzia normalmente só, recebendo visitas pontuais de Ridley Scott ou de Terry Rawlings. Era importante que a sua música fosse aceite como adequada para o filme.</p>
<p>A grande controvérsia em torno da Banda Sonora Original sempre esteve relacionada com o tempo excessivo envolvido na sua criação. Em 1982, os créditos finais de <em>Blade Runner</em> indicavam a edição da BSO na etiqueta Polydor Records. Contudo, a BSO só viu a luz do dia em 1994, 12 anos após a exibição do filme. O que teria provocado este atraso? Estaria Vangelis insatisfeito com algo?</p>
<p><strong>BSO PIRATAS (BOOTLEGS)</strong></p>
<p>Claramente, um período de tempo tão longo entre a exibição do filme e o lançamento para o mercado do disco da Banda Sonora Oficial abriu espaço para uma quantidade de gravações e versões que tentaram ocupar esse espaço em falta. Surgiu, primeiro, uma Banda Sonora sem Vangelis. Um cópia, sem alma, do original. Uma banda sonora &#8220;replicante&#8221;. Mais tarde, três outras gravações foram lançadas para o mercado, incompletas ou ilegais. Entre 1892 e 1994, várias gravações foram colocadas no mercado.</p>
<p>Finalmente, em 1994, é lançada oficialmente a BSO intitulada <em>Blade Runner: Vangelis</em> (Atlantic/Warner Music UK). O disco continha 12 faixas separadas (algumas com excertos de diálogos do filme), incluindo muitas das músicas mais populares do filmes como <em>Love Theme</em>, <em>Tales of the Future</em>, <em>Memoires of Green</em> e <em>Blade Runner End Title</em>. Contudo, muitas outras faltavam. Duas delas de forma compreensível, uma vez que <em>Harps of Ancient Temples</em> fora composta por Gail Laughton e <em>Ogi no Mato </em>é uma música tradicional japonesa.</p>
<p><em>Blade Runner</em> (OST) 1994 Vangelis</p>
<p>Official Vangelis Score</p>
<p>1. Main Titles (3:42)</p>
<p><a id='wpaudio-4fb8ff22405a0' class='wpaudio wpaudio-readid3' href='http://paulopinto.net/audio/Vangelis - Main Titles.mp3'>Vangelis - Main Titles.mp3</a></p>
<p>2. Blush Response (5:47)</p>
<p><a id='wpaudio-4fb8ff2240986' class='wpaudio wpaudio-readid3' href='http://paulopinto.net/audio/Vangelis - Blush Response.mp3'>Vangelis - Blush Response.mp3</a></p>
<p>3. Wait For Me (5:27)</p>
<p><a id='wpaudio-4fb8ff2240d6f' class='wpaudio wpaudio-readid3' href='http://paulopinto.net/audio/Vangelis - Wait For Me.mp3'>Vangelis - Wait For Me.mp3</a></p>
<p>4. Rachel&#8217;s Song (4:46)</p>
<p>[audio http://paulopinto.net/audio/Vangelis - Rachel's Song.mp3]</p>
<p>5. Love Theme (4:56)</p>
<p>[audio http://paulopinto.net/audio/Vangelis - Love Theme.mp3]</p>
<p>6. One More Kiss, Dear (3:58)</p>
<p><a id='wpaudio-4fb8ff2241156' class='wpaudio wpaudio-readid3' href='http://paulopinto.net/audio/Vangelis - One More Kiss Dear.mp3'>Vangelis - One More Kiss Dear.mp3</a></p>
<p>7. Blade Runner Blues (8:53)</p>
<p><a id='wpaudio-4fb8ff224226a' class='wpaudio wpaudio-readid3' href='http://paulopinto.net/audio/Vangelis - Blade Runner Blues.mp3'>Vangelis - Blade Runner Blues.mp3</a></p>
<p>8. Memoires of Green (5:05)</p>
<p><a id='wpaudio-4fb8ff22440a5' class='wpaudio wpaudio-readid3' href='http://paulopinto.net/audio/Vangelis - Memories Of Green.mp3'>Vangelis - Memories Of Green.mp3</a></p>
<p>9. Tales of the Future (4:46)</p>
<p><a id='wpaudio-4fb8ff2244e29' class='wpaudio wpaudio-readid3' href='http://paulopinto.net/audio/Vangelis - Tales Of The Future.mp3'>Vangelis - Tales Of The Future.mp3</a></p>
<p>10. Damask Rose (2:32)</p>
<p><a id='wpaudio-4fb8ff2245ef1' class='wpaudio wpaudio-readid3' href='http://paulopinto.net/audio/Vangelis - Damask Rose.mp3'>Vangelis - Damask Rose.mp3</a></p>
<p>11. Blade Runner (End Titles) (4:40)</p>
<p><a id='wpaudio-4fb8ff2246d82' class='wpaudio wpaudio-readid3' href='http://paulopinto.net/audio/Vangelis - Blade Runner (End Titles).mp3'>Vangelis - Blade Runner (End Titles).mp3</a></p>
<p>12. Tears in Rain (3:00)</p>
<p><a id='wpaudio-4fb8ff2247c5e' class='wpaudio wpaudio-readid3' href='http://paulopinto.net/audio/Vangelis - Tears In Rain.mp3'>Vangelis - Tears In Rain.mp3</a></p>
<p><iframe width="800" height="600" src="http://www.youtube.com/embed/Z5aD0klcVR8?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p><iframe width="800" height="600" src="http://www.youtube.com/embed/6_tySc2H-yg?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Onde estava o sinistro <em>riff</em> de duas notas do sintetizador de Vangelis usado para a cena da morte de Tyrell? (uma pista que um <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Bootleg" target="_blank">bootleg</a> de 1993 intitulou <em>The Prodigial Son Brings Death</em>).</p>
<p><iframe width="800" height="600" src="http://www.youtube.com/embed/S2kcI0z97vc?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Andrew Hoy explica que não foi devido a nenhum descuido de Vangelis. Como músico, Vangelis sempre se preocupou com a exigência de qualidade dos seus produtos e da satisfação dos seus seguidores. Nesse sentido, ele não incluía todos os temas de Bandas Sonoras Originais nos seus discos. O disco não era uma reprodução fiel da BSO do filme. Não via necessária a inclusão de <em>reprises</em> ou de sons que apenas eram usados para dar mais ênfase a determinada cena. Nos seus discos, Vangelis combinava sempre elementos da BSO com material novo.</p>
<p>http://www.youtube.com/watch?v=Gb092WwMMaU</p>
<p>Apesar de todos estes episódios e atrasos, apesar de algumas incompatibilidades entre argumento e obra original, entre a visão única e perfeccionista de Vangelis e a impaciência de Ridley Scott, Philip K. Dick é peremptório:</p>
<blockquote><p>This is not like anything we have ever seen&#8230;.It isn&#8217;t like anything that has ever been done (Philip K. Dick, author of Do Androids Dream Of Electric Sheep, after beeing shown footage of Blade Runner. From &#8220;They Did Sight Stimulation on My Brain&#8221;, ny Gregg Rickman) (Sammon, 1996)</p></blockquote>
<p>http://www.youtube.com/watch?v=Y-9ZgB6hDW0</p>
<p><strong>A PLURALIDADE DAS FORMAS CULTURAIS</strong></p>
<p>Uma obra de arte é produto de uma época, mas também é produto da vivência e experiência dos seus autores. Conhecer as motivações de Philip K. Dick, conhecer a sua história, revela-se imprescindível para reconhecer sinais importantes na sua obra. Entender <em>Blade Runner</em> passa por entrar no universo de Dick, no mundo dos seus <em>origami, </em>na sua visão abalada por episódios da vida pessoal. Contudo, cada obra de arte reflecte muito do mundo em que vive: &#8220;(&#8230;) é sempre possível sublinhar, referindo-nos a uma sociedade histórica concreta, a prevalência de formas de representação, valores, princípios normativos e modelos de comportamento que apresentam entre si uma relativa coerência&#8221; (Crespi, 1997: 28). Talvez por isso, Vangelis viu na visão distópica de Philip K. Dick um &#8220;seu mundo&#8221;. Muito possivelmente, porque o sistema cultural <em>dominante</em> fez uso das suas regras.  Mas a relação entre as várias obras aqui apresentadas não será, certamente, uma relação linear. Cada uma das partes influenciou a sua sucessora, inspirando-a e provocando estados de alteridade. Cada um dos autores terá sido capaz de acrescentar uma nova interpretação, uma visão renovada, acentuando, mais uma vez, o carácter renovado da criação (aqui encarada, também, enquanto acto de interpretação). Da escrita de Dick ao argumento de Fancher, dos planos de Scott à música de Vangelis, a polissemia da obra de arte revela-se em cada segundo de vídeo, palavra e som.</p>
<p><strong>UMA OBRA CONTEMPORÂNEA</strong></p>
<p>As mudanças concretas no sistema de significados culturais estabelecem-se ao longo dos tempos. São processos lentos, paulatinos, que podem nascer tanto das condições externas como da criatividade da própria cultura (Crespi, 1997). Assim, uma obra de arte é também capaz de transformar a sociedade, de perdurar para além dos tempos, de perturbar e afectar,  de contribuir para uma reflexividade permanente. Neste acto criador, estabeleceram-se as &#8220;pontes&#8221; necessárias para uma linguagem do seu tempo, uma massa perene do <em>Zeitgeist</em>. Esse é o grande poder da obra de arte. A intertextualidade é disso testemunho.</p>
<p>A arte, como tecnologia da memória, é um poderoso instrumento que legitima o passado vivido. Nela se inscreve um horizonte temporal que é necessário entender, num processo hermenêutico que seja capaz de juntar obra, autor e fruidor. Contudo, na estrutura poética que antecipa a recordação, ocultam-se as dinâmicas sociais produzidas em determinado tempo (Tota, 2000). Assim, a obra fala por si e requer o seu contexto. É nessa perspectiva que <em>Do Androids Dream Of Electric Sheep?</em>, <em>Blade Runner</em> e a Banda Sonora Original de Vangelis devem ser analisadas, para que possamos entender as relações de força nela implicadas. Mas <em>Blade Runner </em>continua actual, pois as preocupações são, na sua essência, as mesmas. Trinta anos não foram suficientes para que, em termos culturais, tenha havido uma grande mudança. Ou será que houve e só muito mais tarde a reconheceremos?</p>
<p>A nova sequela que se anuncia poderá trazer novos dados à discussão sobre que sociedade temos hoje, por comparação com a sociedade que Philip K. Dick usara para condimentar a sua obra.</p>
<p><strong>RIDLEY SCOTT PREPARA UM NOVO <em>BLADE RUNNER</em></strong></p>
<p>Segundo notícias vindas a público, Ridley Scott prepara um novo <em>Blade Runner</em>. Uma sequela? Um novo filme? Algumas das questões as estas perguntas podem ser esclarecidas nos links que a seguir se disponibilizam:</p>
<p><a href="http://www.publico.pt/Cultura/ridley-scott-prepara-novo-blade-runner_1508655" target="_blank">http://www.publico.pt/Cultura/ridley-scott-prepara-novo-blade-runner_1508655<br />
</a><a href="http://www.guardian.co.uk/film/filmblog/2012/feb/06/ridley-scott-blade-runner-sequel" target="_blank">http://www.guardian.co.uk/film/filmblog/2012/feb/06/ridley-scott-blade-runner-sequel<br />
</a><a href="http://moviesblog.mtv.com/2011/08/19/ridley-scott-blade-runner-harrison-ford/" target="_blank">http://moviesblog.mtv.com/2011/08/19/ridley-scott-blade-runner-harrison-ford/<br />
</a><a href="http://collider.com/ridley-scott-blade-runner-sequel/124714/" target="_blank">http://collider.com/ridley-scott-blade-runner-sequel/124714/</a></p>
<p><strong>ROSA MONTERO &#8211; &#8220;LÁGRIMAS NA CHUVA&#8221;</strong></p>
<p>Inspirada na obra de Philip K. Dick, a escritora espanhola Rosa Montero lançou o seu livro &#8220;Lágrimas na Chuva&#8221;. Mais um exemplo de intertextualidade, a merecer a nossa atenção futuramente.</p>
<p><iframe width="800" height="600" src="http://www.youtube.com/embed/O4wXhJz8dQ4?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p><strong>O CULTO</strong></p>
<p><a href="http://www.philipkdick.com/" target="_blank">Philip K. Dick<br />
</a><a href="www.bladezone.com" target="_blank" class="broken_link">BladeZone: The Online Blade Runner Fan Club and Museum<br />
</a><a href="http://www.brmovie.com/" target="_blank">BRMOVIE.com</a></p>
<p><strong>BIBLIOGRAFIA</strong></p>
<p>CAVALLI, V. (2006). <em>A Linguagem Cinematográfica: Modelos Sociais e os Mitos Futuristas.  </em>Acedido em 1 de Maio de 2012, em http://busca.unisul.br/pdf/85979_Vanessa.pdf</p>
<p>CRESPI, F. (1997). <em>Manual de Sociologia da Cultura.</em> Lisboa: Editorial Estampa.</p>
<p>DICK, P. K. (2006). <em>O andróide e o humano</em>. Lisboa:Vega.</p>
<p>ELIAS, H. (2007). <em>Néon Digital. Um Discurso sobre os Ciberespaços</em>. Acedido em 29 de Abril de 2012, em: http://www.livroslabcom.ubi.pt/pdfs/20110824-elias_herlander_neon_digital.pdf</p>
<p>ROSA, J. M. (2007). Exegesis ou «Ele está no meio de nós». In Revista FAMECOS, Porto Alegre, nº 34, 2007, (pp. 7-13). Acedido em 29 de Abril de 2012, em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/viewFile/3446/2708</p>
<p>SAMMON, P. M. (1996). <em>Future Noir. The Making of Blade Runner</em>. New York: Itbooks.</p>
<p>TOTA, A. L. (2000). <em>A Sociologia da Arte, Do Museu Tradicional à Arte Multimédia</em>. Lisboa: Editorial Estampa.</p>
<p><strong>Autoria: Paulo Pinto (PG20961)</strong><br />
<strong>Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura</strong><br />
<strong>Universidade do Minho </strong></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://cibermundos.net/cibercultura/blade-runner-a-nostalgia-do-futuro/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A nova geografia do espaço público</title>
		<link>http://cibermundos.net/cibercultura/a-nova-geografia-do-espaco-publico/</link>
		<comments>http://cibermundos.net/cibercultura/a-nova-geografia-do-espaco-publico/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 04 Oct 2011 17:49:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[Espaço Público]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://cibermundos.net/?p=344</guid>
		<description><![CDATA[1 – INTRODUÇÃO Muito se questiona, na actualidade, a necessidade de promoção de um debate público, verdadeiramente democrático, que seja capaz de concorrer para uma nova ordem social. Esta emergência contemporânea – que porventura transportará uma marca restauradora dos ideais modernos de igualdade e liberdade – parece paradoxal face à profusão de canais de comunicação ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<p><a href="http://paulopinto.net/wp-content/uploads/2011/08/folhadecalculo.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-384" title="folhadecalculo" src="http://paulopinto.net/wp-content/uploads/2011/08/folhadecalculo-300x198.jpg" alt="" width="300" height="198" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1 – INTRODUÇÃO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Muito se questiona, na actualidade, a necessidade de promoção de um debate público, verdadeiramente democrático, que seja capaz de concorrer para uma nova ordem social. Esta emergência contemporânea – que porventura transportará uma marca restauradora dos ideais modernos de igualdade e liberdade – parece paradoxal face à profusão de canais de comunicação cada vez mais abertos ao cidadão comum – esses mecanismos de visibilidade tão acessíveis e sobejamente banalizados, quais paladinos da <em>vox populi</em> –, mostrando-se assim convictos da sua importância social. Contudo, o espaço público – que desde a ágora ateniense até à modernidade constituiu-se como fonte de discussão e debate permanente das ideologias colectivas – vê-se hoje como um espaço fragmentado e diluído pela reconfiguração espácio-temporal operada na sociedade do conhecimento. O espaço físico do encontro – outrora sede de enriquecimento e partilha sociais – não é mais do que a negação do <em>topos</em>, o não-lugar cuja erosão configura uma nova geografia das relações interpessoais. Na confluência dos novos paradigmas pós-industriais, questionar-se-á a capacidade deste novo “espaço público” operar mudanças significativas rumo a valores sólidos e socialmente partilhados.</p>
<p style="text-align: justify;">As reflexões que encetaremos em torno deste assunto não prescindirão de uma análise que assentará na diacronia, remontando às noções modernas de esfera pública – como as de Jürgen Habermas ou Dominique Wolton –, à metamorfose do espaço público – no que hoje se entende por espaço de fluxos – e ao crescente recurso às novas tecnologias da informação que dissolvem as noções clássicas de tempo e espaço. Apresentaremos algumas ideias que apontam para que a reconfiguração em curso deva ser lida à luz não de uma autonomia do sujeito, mas do culto narcísico do Eu e do individualismo contemporâneos, leitura que representa uma análise sociológica importante. Apesar deste trabalho académico reflectir a posição actual do seu autor face à questão levantada, parece-nos importante a inclusão de referências a pontos de vistas divergentes que, em certa medida, contêm ou preconizam, na sua génese, ideais nobres no que diz respeito à construção de uma sociedade mais participativa e emancipada, onde o indivíduo possa emergir, como um elemento imprescindível, enquanto membro de uma comunidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Por último, não referir o papel fulcral da unidade curricular de <em>Movimentos do Pensamento Contemporâneo</em> para a compreensão de grande parte das matérias abordadas, seria perder de vista a importância nuclear de uma clara noção dos vários conceitos envolvidos na discussão em torno da modernidade e pós-modernidade, correndo o risco de uma simplificação generalizadora.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2 – A IMPORTÂNCIA DA ESFERA PÚBLICA</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A importância da esfera pública – enquanto conceito que remete para o nascimento de um espaço aberto e livre de partilha de opinião – é salientada por vários pensadores e filósofos políticos que, desde a modernidade até à contemporaneidade, não deixaram de reflectir nas suas potencialidades e possíveis desvirtuações. Immanuel Kant depositava a sua fé no perfeito funcionamento do espaço público, cujo aparecimento coincidiria com a expansão da imprensa e consequente nascimento da opinião pública (Silva, 2005). Kant propõe que o indivíduo “pense” em voz alta e em diálogo, num espaço transparente onde impere a lei da livre expressão universal. A máxima kantiana do sapere aude(1) deveria ser privilégio não apenas de um público masculino e letrado, frequentador da esfera pública literária(2), mas igualmente do público dos salões, onde se discutia igualmente de forma crítica e racional. Segundo Kant, a passagem da categoria de “seres humanos” à categoria de “cidadãos” processar-se-ia através de uma discussão democrática de assuntos de interesse da comunidade (Silva, 2002). São estes princípios basilares do Iluminismo – como a igualdade de participação, a democratização da cultura ou a universalidade de acesso – que Kant postula para que público seja sinónimo de “inclusivo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na contemporaneidade, a noção kantiana de espaço público será retomada por Jürgen Habermas que a define como “(…) a esfera intermédia que historicamente se constituiu no momento da Luzes entre a sociedade civil e o Estado” (Silva, 2005: 161). Este lugar acessível a todos os cidadãos congrega uma opinião pública que resulta da “(…) troca discursiva de posições razoáveis sobre problemas de interesse geral” (Silva, 2005: 161), configurando um fórum no qual apenas a força do melhor argumento decidiria o debate, e funcionando enquanto instância de controlo e de legitimação do poder político. Deste modo, o Estado é influenciado de modo indirecto pela opinião dos cidadãos, através de uma liberdade de comunicação que lhes é devida e que deve fomentar o uso público da razão. Poderá a desigualdade social dos participantes nas tertúlias dos cafés, dos salões, das sociedades culturais ou das universidades afectar este debate? Na obra Mudança Estrutural da Esfera Pública(3), Habermas dá conta de uma tendência para o declínio e descaracterização deste lugar de discussão – noção-chave da teoria da democracia – que ele considera “(…) uma categoria central das modernas sociedades ocidentais” (Habermas cit. por Silva, 2002: 13), facto que sustenta a importância que atribui à imprensa como aliado fundamental neste processo. Através do que apelida de “jornalismo de convicção”, as publicações deverão assumir funções críticas, não se limitando a uma mera difusão de notícias, antes a um jornalismo literário que configure uma “discussão crítica convivial” assente num processo de esclarecimento recíproco e através de um “(…) meio que exclui a necessidade de partilha de um tempo e de um espaço [condicionalismo inibidor e potenciador de discriminação], mas que mantém intactas as características próprias da discursividade dialógica face a face” (Silva, 2002: 21).</p>
<p style="text-align: justify;">O nascimento da “ética discursiva”(4), inscrita no projecto crítico da Escola de Frankfurt, pressupõe a existência de uma utopia que confere características idealistas ao conceito de espaço público de base iluminista. Este espaço idealizado, inicialmente isento de dominação política e social, dará lugar a um outro espaço mais complexo, desprovido de liberdade de expressão, devido “(…) à evolução tecnológica, ao surgimento da sociedade de massa e à emergência de um capitalismo tendencialmente oligopolista” (Silva, 2005: 160). Nesta linha de pensamento podemos incluir Dominique Wolton(5) e o seu conceito de “sociedade individualista de massa”. Segundo Wolton, há um “(…) novo espaço mais amplo do que o anterior, com um número maior de actores intervindo publicamente, uma omnipresença da informação, das sondagens, do marketing e da comunicação” (Silva, 2005: 161). Ora, se o conceito de “publicidade” habermasiano concebe o espaço público como meio de pressão à disposição dos cidadãos para contrariarem o poder do Estado, assistimos a uma perversão do mecanismo de concertação democrática, resultado de uma deformação exercida por actores sociais detentores de grande poder económico, manipulando a informação segundo os seus próprios interesses e impedindo a formação de uma opinião transparente (Silva, 2005). O neoliberalismo que Wolton aponta como sendo responsável por esta mutação da ideia inicial de espaço público, que pressupõe a existência de indivíduos autónomos, subverte um dos principais contributos da modernidade: “(…) a ideia de que a política é um assunto público, no sentido – conforme o matiz ou o contexto em questão – do estatal, acessível a todos, que a todos diz respeito, comum ou compartilhado” (Innerarity, 2010: 10).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>3 – A METAMORFOSE DO ESPAÇO PÚBLICO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Das noções de esfera pública abordadas anteriormente emerge uma questão que importa evidenciar e que consiste na necessidade da não redução do conceito espaço público à partilha de uma determinada dimensão espácio-temporal, uma ideia tão mais importante quanto maior a influência do processo de globalização a que assistimos na pós-modernidade: “o espaço público já não é somente o lugar da comunicação de cada sociedade consigo própria mas também o lugar de uma comunicação entre sociedades diferentes umas das outras” (Innerarity, 2010: 15). Esta realidade implica a reanálise de conceitos desactualizados, bem como a sua validade normativa. A aldeia global em que nos vemos transformados provoca alterações radicais nos modos de agir e de pensar, desenraíza-nos e descompromete- nos em relação à causa pública: “até há pouco tempo muitos europeus não se definiriam como habitantes da ‘Europa’: diriam que viviam em Lodz (Polónia), ou na Ligúria (Itália), ou talvez até em ‘Putney’ (um subúrbio de Londres)” (Judt, 2010: 72).</p>
<p style="text-align: justify;">Se é certa a importância de uma ideia abrangente de espaço público, não confinado à sua dimensão puramente geográfica, igualmente importante, para que possamos perceber a sua metamorfose, é a consequência visível de uma economia à escala planetária que faz da mobilidade e dos fluxos o seu <em>modus operandi</em>: “a intensificação recente de trocas globais criou um espaço global de fluxos que tende a substituir o espaço tradicional dos lugares” (Castells cit. por Delalex, 2008: 102). A cidade, como local privilegiado de encontro, submete-se a fluxos de índole tecno-financeira que enfraquecem a dinâmica comunitária, sobressaindo “(…) uma aposta em encontros adiados” (Pais, 2010: 75). Assistimos a um esvaziamento do espaço público da cidade e, consequentemente, a um enfraquecimento da sua potencialidade de representar terreno de encontro: “as ruas e praças configuram-se sempre, cada vez mais, como canais de comunicação e não como espaço em que é possível encontrar outros” (Mela, 1999: 151). Assim, conceitos como o de “cidade genérica” ganham corpo:</p>
<p style="text-align: justify;">“A Cidade Genérica mantém-se unida não por um domínio público excessivamente exigente – progressivamente degradado numa sequência inesperadamente longa em que o fórum romano está para a ágora grega como o centro comercial está para a rua principal – mas pelo residual” (Koolhaas, 2010: 42)</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica produtivista que resulta da nova economia – causadora das já referidas questões da mobilidade e dos fluxos – e que transforma a acção civilizadora e de referência da cidade, é também causa de fenómenos de suburbanização que modificam o modo como o espaço é percepcionado. O consequente afastamento de grande parte da população metropolitana das zonas centrais, associadas tradicionalmente aos espaços públicos, “(…) faz com que estes últimos percam o seu papel de símbolos da cidade e de lugares privilegiados da sua topografia” (Mela, 1999: 151). O que decorre desta mobilidade de pessoas e ideias é uma inevitável fragmentação de territórios que abre espaço ao nascimento de minorias carentes de referências e que conduz ao nascimento de “(…) espaços étnicos, alternativos, nacionalistas [...], com dificuldade de conexão aos restantes segmentos urbanos” (Gonçalves, 2006: 28). As análises efectuadas pelos pensadores do espaço público reforçam a ideia de um urgente e necessário reinvestimento na sua dimensão simbólica – “símbolo perene da urbanidade, o espaço público é o elemento, por excelência, que transforma a cidade no contrário do somatório de bairros e de pequenos universos herméticos” (Gonçalves, 2006: 48) – e de uma inversão na lógica do urbanismo funcionalista para que o largo ou a praceta de bairro possam ser o “(…) local das trocas e dos encontros, [o local] da verdura num mundo de betão e vidro” (Lipovetsky &amp; Serroy, 2010: 218).</p>
<p style="text-align: justify;">Confrontados com o abandono dos lugares de encontro face a face por excelência – o café, a associação cultural ou a praça pública –, deparamo-nos com um espaço que, em si mesmo, não produz efeito algum, ficando remetido a um papel meramente funcional. Esta ideia, retirada de Simmel, vem deixar claro que “é a ‘acção recíproca’ entre os indivíduos a única capaz de transformar um espaço ‘vazio’ num espaço ‘cheio’ de vida social” (Simmel cit. por Pais, 2010: 63). A “acção recíproca”, que Simmel reclama como forma de produzir efeitos renovadores na sociedade, parece adequar-se para, com propriedade, anular qualquer ilusão decorrente do facto de, na contemporaneidade, assistirmos à tentativa de revitalização e reocupação dos espaços públicos, nomeadamente a dos centros históricos recuperados. De <em>per se</em>, esta ocupação não significa a recuperação da ágora ateniense, do fórum romano ou do adro da igreja: “a simples presença concentrada de diferentes indivíduos não produz inovação se entre eles não existe comunicação, [entendida como confronto de ideias]” (Mela, 1999: 150). Se o espaço físico da cidade não é mais o espaço de proximidade e de encontro dos cidadãos, como poderá ser contrariada a ideia de uma sociedade vista como colecção atomística de indivíduos ou grupos desvinculados entre si (Innerarity, 2010)? Será suficiente “(…) devolver toda a força da convivialidade à praça pública” (Lipovetsky &amp; Serroy, 2010: 218) sem que, em simultâneo, seja posta em marcha uma verdadeira revolução cultural? Qual a verdadeira idiossincrasia e identidade do espaço público contemporâneo? Certamente que não será despiciendo, em resposta a estas questões, voltarmos as atenções para a nova forma de comunicar que surge nos alvores da sociedade da informação: a comunicação em rede.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>4 – A NOVA GEOGRAFIA DAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os últimos anos têm assistido ao emergir de novos espaços virtuais mediáticos cuja localização espácio-temporal não se encontra claramente definida. Especular sobre estes novos espaços de comunicação que a revolução digital nos proporcionou, permite dizer praticamente tudo e o seu contrário: “(…) progresso imenso ou regressão funesta, assunção do indivíduo democrático ou alienação da consciência do cidadão, instrumento poderoso de aculturação ou máquina gigantesca de lobotomizar” (Nora, 1995: 263). Contudo, e a partir de uma observação atenta, apercebemo-nos que as inovadoras ferramentas de comunicação de que dispomos substituem, cada vez mais, as funções tradicionais de aculturação, participação cívica e interacções sociais, definindo “(…) uma situação pela qual se quebra o nexo tradicional entre espaços públicos e comunicação” (Mela, 1999: 151). Doravante, as localizações concretas dos interlocutores e as distâncias físicas tornar-se-ão irrelevantes: “na paisagem electrónica, a cidade constituiria apenas um conjunto de terminais da rede e, portanto, [parte integrante de um novo espaço público]” (Mela, 1999: 151).</p>
<p style="text-align: justify;">Assistimos, assim, ao nascimento de um novo paradigma sociocultural que gera novas identidades culturais com base no grande desenvolvimento tecnológico e na aceleração da realidade. Com as novas tecnologias da comunicação e da informação, dá-se uma mudança na concepção territorial. A reconfiguração do tempo e do espaço cria “(…) relações humanas menos estáveis e identificadoras e mais mutáveis e reticulares; menos hierárquicas e mais igualitárias e enriquecedoras” (Bauman cit. por Tortosa, 2008: 260). A humanidade parece ter em frente a si um destino comum que parece emergir como nunca: a conectividade electrónica. O computador surge como a máquina operadora desta radical mudança:</p>
<p style="text-align: justify;">“O computador é o instrumento central das sociedades através do qual o indivíduo sente, se relaciona, pensa, constrói relações (íntimas ou sociais), gera a sua identidade. As intensas relações informáticas estão a mudar o modo de pensar e inclusive de sentir […] A Internet é o laboratório principal por onde circula essa identidade mutante” (Tortosa, 2008: 262-263 [trad. nossa]).</p>
<p style="text-align: justify;">Assistimos ao nascimento de espaços públicos de discussão que se situam fora do contexto territorial e que não param de ampliar-se e aperfeiçoar-se, ficando acessíveis a um cada vez maior número de utilizadores(6). Geograficamente falando, a cultura de redes mediadas por computadores representa uma analogia do mundo: “(…) um lugar onde se constrói um espaço topográfico (<em>interface</em>), com lugares (<em>sites</em>) e caminhos (<em>paths</em>) que irão ser percorridos, até se chegar ao destino” (Silva, 2007: 211). Esta irrupção da sociedade do conhecimento, que se manifesta através da desmaterialização dos contactos, retira ao espaço público urbano a sua função central – “a da comunicação e publicitação da informação” (Gonçalves, 2006: 25) –, realidade que abre um intenso debate na sociologia contemporânea, resultando as aturadas análises em teses diversas. Della Pergola(7) considera que o crescimento reticular a que as metrópoles estão sujeitas provocará uma “(…) desadaptação socioespacial e sociotemporal que determina sobretudo – salvo para escassas elites – uma perda de linguagem” (Della Pergola cit. por Mela, 1999: 152). Por seu lado, Castells(8) vê neste espaço de fluxos, que a sociedade em rede gera, uma instância de poder das organizações económicas “(…) desligadas da referência a localidades específicas e capazes de patrocinar uma rede de comunicações informatizada” (Mela, 1999: 152). A este tipo de poder que é exercido corresponderá, segundo Castells, uma reacção do cidadão, que habita um lugar específico e que dará lugar ao nascimento da “cidade da informação”, o equivalente do espaço público para uma nova forma de urbanidade (Mela, 1999). Mais optimista, Amendola(9) não vislumbra que a sociedade em rede possa perigar o papel dos espaços públicos como momento insubstituível da vida urbana: “a comunicação directa e a comunicação por via informática não estão destinadas a colidir, mas antes a reforçar-se reciprocamente” (Amendola cit. por Mela, 1999: 152). A mesma opinião tem Gottmann(10), o que o leva a afirmar que o desenvolvimento das telecomunicações produziu uma revolução na cidade:</p>
<p style="text-align: justify;">“A circulação das pessoas a breve e longa distância não pára de aumentar; o desejo em estar presente em todas as formas de manifestação, participar pessoalmente nas reuniões, conviver face to face acentua-se. E tudo isto anima, multiplica, sobrecarrega as redes, faz crescer ou explodir os centros das grandes cidades” (Gottmann cit. por Mela, 1999: 153).</p>
<p style="text-align: justify;">Retomamos, neste ponto, a ideia de “acção recíproca” de Simmel para darmos conta do que Hannah Arendt(11) chama a “(…) usurpação do espaço público da política pela irrupção do social” (Innerarity, 2010: 15). Ainda que concordemos com Gottmann na forma, discordamos profundamente no conteúdo. Não basta um aglomerado de pessoas no espaço público para que dele possa sair uma cultura verdadeiramente reflexiva e inspiradora de novas soluções colectivas. Pelo contrário, assistimos a fenómenos de “narcisismo público”(12) que mais não fazem do que provocar “ruído” na interpretação qualitativa das relações interpessoais que se pretende rigorosa. Hoje, assiste-se a uma degenerescência da opinião pública e a um abandono dos deveres de cidadania:</p>
<p style="text-align: justify;">“Onde essa despolitização e esse empobrecimento mais claramente se manifestam é no tipo de comunicação que atinge a opinião pública: uma comunicação trivializada e sem autênticos debates. Realiza-se nela um tipo de confrontação elementar em que o acontecimento está acima do argumento, o espectáculo acima do debate, a dramaturgia acima da comunicação, a imagem acima da palavra. A esfera pública fica reduzida a um conjunto de “espectáculos de aclamação” (Habermas cit. por Innerarity, 2010: 16)</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos perante um espaço público que já não é tido como o processo em que as opiniões se formam, mas o lugar onde elas simplesmente se tornam públicas(13) (Innerarity, 2010).</p>
<p style="text-align: justify;">A inovação postulada pelo progresso tecnológico, de carácter unificador, vê-se substituída pela moda, a nova arma urbana que configura igualmente novas formas de sociabilidade e identificação. São agora as tribos urbanas pós-modernas quem reconfigura o espaço público, vagueando unidas por impulsos emotivos temporais. Elas unem e excluem, agregam e contrapõem. Temos agora uma “(…) sociedade reestruturada de alto a baixo pela sedução do efémero, pela própria lógica da moda” (Lipovestky, 2010: 19). O vínculo social da <em>solidariedade mecânica</em> que Durkheim(14) conferiria às sociedades pré-modernas, e que auto-regulava os comportamentos individuais, encontra agora respostas nas numerosas redes de relações (Lipovestky, 2007). Deveremos tentar recuperar, incondicionalmente, as dimensões pós-modernas que representam um certo revisitar do período pré-moderno, tentar retornar às identidades e à solidariedade mecânica (Eco, 1986). Poderá a sociedade do conhecimento, como plêiade de redes de relações, despertar uma emergência de novos valores, um sentimento de multi-pertença? Daniel Innerarity coloca esta questão de uma forma esclarecedora:</p>
<p style="text-align: justify;">“O problema que hoje enfrentamos consiste em como pensar a cidade quando temos redes em vez de vizinhança [...] quando há já muito tempo o debate público se efectua num espaço virtual, quando as ruas e as praças deixaram de ser os principais lugares de encontro e encenação. A questão consiste em saber se o espaço público, como espaço de experiência humana intersubjectiva, essencial à democracia, necessita de um tipo de espaço físico segundo o modelo grego, medieval, renascentista, burguês, ou se essa antiga relação entre civilização e urbanidade se pode realizar fora dos espaços da cidade clássica europeia” (Innerarity, 2010: 136)</p>
<p style="text-align: justify;">O espaço público deve ser visto como “(…) arena agonística, terreno de confronto e interpelação, <em>locus</em> de formação dialógica da opinião pública” (Lopes, 2010: 57) e não como sinónimo de precaridade do sentimento comunitário, um lugar ocupado pelas chamadas “(…) comunidades fantasmas, cuja característica é serem constituídas por interacções superficiais” (Pais, 2007: 198). Dir-se-ia que, apesar da existência de um espaço público, a sua capacidade de gerar comunicação motivadora e inspiradora de reflexão não possui uma matiz, antes apresenta sintomas de tendência regressiva (Gonçalves, 2006). A comunicação pública não é mais do que uma enfadonha justaposição de monólogos, uma discussão supérflua que se esquece de converter as opiniões em temas de discussão, uma marca indelével de uma cultura que faz emergir um novo <em>unencumbered self(</em>15): o “eu desvinculado” de motivação teleológica. Aqui reside um dos principais paradoxos que, de forma omnipresente, se faz acompanhar das relações interpessoais – “sociais” – da contemporaneidade: o indivíduo pós-moderno, uma evolução degenerativa do indivíduo moderno, é “<em>independente</em>, <em>autónomo</em> e, consequentemente, essencialmente não social(16)” (Dumont cit. por Renaut, 2000: 76).</p>
<p style="text-align: justify;">Não será difícil, para quem frequente <em>chats</em>, <em>blogues</em> ou redes sociais, constatar que o espaço público é hoje uma extensão das discussões, conversas e monólogos que têm lugar na rede. A Internet, salvo honrosas excepções, é maioritariamente um repositório de “(…) informação selectiva que confirma as próprias opiniões” (Innerarity, 2010: 12). O pensamento “debole”, que Gianni Vattimo vê na sociedade da hiper-informação, é o resultado de uma comunicação cujas produções, e tudo o que lhe diz respeito, se encaminha na direcção do estético (Paiva, 2007). Esta sociedade tecnicista, de prazeres estéticos, provocou o declínio dos intelectuais (Touraine, 1994), colocando-nos, doravante, no curso de uma crise não tecnoeconómica mas profundamente cultural(17).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>5. CONCLUSÃO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Na base do empobrecimento da relações sociais e da dessubstancialização do diálogo público está o crescente individualismo dos cidadãos, remetidos à sua impermeável consciência de cidadãos livres, donos do seu próprio destino, sem compromissos duradouros e responsabilidades que extravasem as fronteiras da sua geografia física. A liberdade colectiva deu lugar à liberdade individual que se julga inabalável. A vida intelectual está hoje profissionalizada, “poluída” por <em>opinion makers</em> que mais não fazem do que dizer à multidão o que pensar. Vivemos na ilusão de uma sociedade que reflecte as nossas opiniões, quando nos falta a credibilidade resultante do esforço em zelar pelo bom funcionamento das instituições. Cabe, urgentemente, uma atitude de cautela que preste atenção a algumas formas de “diálogo” que mais não fazem do que suprimir opiniões discordantes. A crescente homogeneização a que assistimos ecoa na gramática da sociedade em rede, espaço que regista uma profusão de <em>soundbytes</em> amplificadora dos lugares comuns, onde a constatação do óbvio é tomada como ponto de chegada e onde a recusa da discussão argumentativa faz com que o “nosso” seja “único”. Hoje, elogia-se o <em>ordinário</em>, quando é o <em>extraordinário</em> que deve merecer a nossa atenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Em face do atrás dito, parece evidente que só uma reformulação do diálogo público – quer este se processe no espaço físico, quer no espaço virtual – será capaz de provocar a mudança, desde que a reciprocidade que daí advenha seja um contributo significativo para o bem colectivo. É necessário resistir ao processo de individualização e atomização para que um verdadeiro sentimento de pertença possa sobressair, o que faz com que uma condição essencial para o sucesso das tecnologias de informação e comunicação consista na convergência dos objectivos que estão na base do uso dessas ferramentas, usadas não para substituir o imprescindível contacto face a face – a única forma de combater o anonimato e a criação de falsas identidades –, mas para o prolongar. O novo espaço público não pode ser construído a partir da soma de fluxos e de lugares. É necessária uma completa revolução de mentalidades, uma nova “cultura do outro”.</p>
<p style="text-align: justify;">A forte tendência para separar a tecnologia do mundo dos homens, como se esta fosse um protagonista autónomo – separado da sociedade e da cultura – parece não fazer sentido senão numa proposta que ignore, na realidade técnica, a sua componente humana. Nesse sentido, a utilização das novas tecnologias de informação e comunicação deve ser encarada sempre como <em>condicionante</em> e nunca como <em>determinante</em>. Do seu bom uso, poderá nascer um verdadeiro espaço público que faça fervilhar as praças da cidade com novas e estimulantes ideias, para o benefício não de uns, mas de todos.</p>
<p><strong>NOTAS</strong></p>
<p>1 <em>Sapere aude</em> é uma lema latino que significa “ouse saber” ou “atreva-se a saber”, por vezes traduzido como “tenha a coragem de usar o seu próprio entendimento”.<br />
2 A esfera pública literária surge nos cafés e salões da cidade, centro da actividade económica e cultural da sociedade civil, e é constituída por uma sociedade aristocrata e humanista. Mais tarde, juntando-se à camada intelectual da burguesia, dará origem à esfera pública burguesa, considerada por Habermas como fonte de desvirtuação da democracia no espaço público (Silva, 2002).<br />
3 A obra apareceu originalmente em alemão, com o título <em>Strukturwandel der Offentlichtkeit. Untersuchungen zu einer Kategorie der bürgerlichen Gesellschaft</em>, em 1962. Foi traduzida para português em 1984, e editada pelas Edições Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, com o título <em>Mudança Estrutural da Esfera Pública</em> (Silva, 2002).<br />
4 A “ética discursiva” surge nos início dos anos setenta do século XX, em Frankfurt, pela mão de K.O. Apel e J. Habermas, tendo como objectivo a procura de soluções para os problemas humanos através de um diálogo que pretende mitigar a distorção imposta pelas ideologias (Cortina, 1989).<br />
5 Cf. Wolton, D. (1997). <em>Penser la comunication</em>. Paris: Flammarion.<br />
6 Panayota Gounari chama a atenção para o facto do acesso à nova sociedade do conhecimento requerer níveis económicos, culturais e discursivos que podem iludir a erradicação de fronteiras na noção de aldeia global. Cf. Gounari, P. (2009). <em>A Democracia na Nova Era Tecnológica</em>. Mangualde: Edições Pedago.<br />
7 Cf. Della Pergola, G. (1990). <em>Lezioni di Sociologia Urbana</em>. Napóles: Liguori.<br />
8 Cf. Castells, M. (1972). <em>La question urbaine</em>, Paris: Maspero.<br />
9 Cf. Amendola, G. (1995). Public Spaces and City Regeneration. In Council for Cultural Cooperation, <em>Culture and Neighbourhoods</em>, vol. I, Concepts and References, pp. 71-78. Estrasburgo: Council of Europe Publishing.<br />
10 Cf. Gottmann, J. (1991). La centralità globale: la città nella rete mondiale. In J. Gottman &amp; C. Muscarà, <em>La città prossima ventura</em>. Roma-Bari: Laterza.<br />
11 Cf. Arendt, H. (1998). <em>The Human Condition</em>. Chigago: University of Chicago Press.<br />
12 Cf. Lasch, C. (1978). <em>The Culture of Narcissism</em>. New York: Norton; Sennett, R. (1977).<em>The Fall of Public Man</em>. New York: Knopf.<br />
13 Cf. Neidhardt, F. (1994). Öffentlichkeit, öffentliche Meinung, soziale Bewegungen. In Kölner Zeitschrift für Soziologie und Sozialpsychologie, Sonderheft, 34, Opladen: Westdeutscher Verlag.<br />
14 Cf. Durkheim, E. (1999). <em>As regras do método sociológico</em>. São Paulo: Martins Fontes.<br />
15 Originalmente, <em>unencumbered self</em> é a ideia kantiana de um “eu desvinculado” que é convidado a imaginar, a priori, os princípios de uma sociedade com base em pressupostos de justiça, que não correspondem a fins específicos. Cf. Sandel, M. (1984). The Procedural Republic and the Unencumbered Self. In <em>Political Theory</em>, 12/1, 81-96. 16 Cf. Renaut, A.<em>Essais</em>, pp.35, 81; <em>Homo aequalis</em>, p.17.<br />
17 Cf. Lipovetsky, G. (2007). <em>A Era do Vazio</em>. Lisboa: Relógio D’Água (pp.81-91).</p>
<p><strong>BIBLIOGRAFIA</strong></p>
<p>CORTINA, A. (1989). La ética discursiva. In V.Camps (ed.), Historia de la ética, Vol. 3, (pp. 533-581). Barcelona: Editorial Crítica.<br />
DELALEX, G. (2008). Do fluxo ao lugar. Revista Nada, 11, 100-113.<br />
ECO, U. (1986). Viagem na irrealidade quotidiana (3ª ed.). Lisboa: Difel.<br />
GONÇALVES, J. M. (2006). Os Espaços Públicos na Reconfiguração Física e Social da Cidade. Lisboa: Universidade Lusíada Editora.<br />
GOUNARI, P. (2009). A Democracia na Nova Era Tecnológica. Mangualde: Edições Pedago.<br />
INNERARITY, D. (2010). O Novo Espaço Público. Lisboa: Teorema.<br />
JUDT, T. (2010). Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos. Lisboa: Edições 70.<br />
KOOLHAAS, R. (2010). Três Textos Sobre a Cidade. Barcelona: Editorial Gustavo Gili.<br />
LIPOVETSKY, G. (2007). A Era do Vazio. Lisboa: Relógio D’Água.<br />
LIPOVETSKY G. (2010). O Império do Efémero. A Moda e o seu Destino nas Sociedades Modernas (2ª ed.). Lisboa: Publicações Dom Quixote.<br />
LIPOVETSKY, G. &amp; SERROY, J. (2010). A Cultura-Mundo. Lisboa: Edições 70.<br />
LOPES, J. T. (2010). Da cultura como locomotiva da cidade-empresa a um conceito alternativo de democracia cultural. In M.L.L. dos Santos &amp; J.M. Pais (org.), Novos Trilhos Culturais. Práticas e Políticas, (pp. 51-62). Lisboa: ICS.<br />
MELA, A. (1999). A Sociologia das Cidades. Lisboa: Editorial Estampa.<br />
NORA, D. (1995). Os Conquistadores do Ciberespaço. Lisboa: Terramar.<br />
PAIS, J. M. (2007). Sociologia da Vida Quotidiana (3ª ed.). Lisboa: ICS.<br />
PAIS, J. M. (2010). Lufa-Lufa Quotidiana – Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana. Lisboa: ICS.<br />
PAIVA, R. (2007). A potência do pensamento debole de Gianni Vattimo para a Comunicação. Acedido em 23 de Abril de 2011, em: http://serbal.pntic.mec.es/~cmunoz11/paiva54.pdf<br />
RENAUT, A. (2000). A Era do Indivíduo. Lisboa: Instituto Piaget.<br />
SILVA, F. C. (2002). Espaço Público em Habermas. Lisboa: ICS.<br />
SILVA, M. J. L. (2005). Espaços cosmológicos. Revista de comunicação e linguagens, 34-35, 157-163. Lisboa: Relógio D’Água.<br />
SILVA, A. M. P. da. (2007). Ciberantropologia: o estudo das comunidades virtuais. In J. S. Ribeiro &amp; S. Bairon (org.), Antropologia Visual e Hipermedia, (pp. 207-218). Porto: Edições Afrontamento.<br />
TORTOSA, V. (2008). Sujetos mutantes: nuevas identidades en la cultura. In D. R. Lopez &amp; A. S. Cabrerizo (ed.), Literaturas del texto al hipermedia, (pp. 257-272). Barcelona: Anthropos.<br />
TOURAINE, A. (1994). Crítica da Modernidade. Lisboa: Instituto Piaget.</p>
</div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://cibermundos.net/cibercultura/a-nova-geografia-do-espaco-publico/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cibercidades: um novo espaço público?</title>
		<link>http://cibermundos.net/cibercultura/cibercidades-um-novo-espaco-publico/</link>
		<comments>http://cibermundos.net/cibercultura/cibercidades-um-novo-espaco-publico/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 21 Sep 2011 10:50:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cibercidades]]></category>
		<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[Espaço Público]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://cibermundos.net/?p=296</guid>
		<description><![CDATA[Harold Proshansky, psicólogo ambiental norte-americano da Universidade de Nova Iorque, identifica o termo urban-related-identity como a identidade relativa à cidade que todos os indivíduos possuem desde a infância: os sentimentos de pertença territorial de tipo orgânico. Contudo, a influência produzida sobre o mesmo indivíduo pelos sistemas de comunicação de massas configura uma acção de natureza ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/ilustra047.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-303" title="ilustra047" src="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/ilustra047-300x189.jpg" alt="" width="300" height="189" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Harold Proshansky, psicólogo ambiental norte-americano da Universidade de Nova Iorque, identifica o termo <em>urban-related-identity</em> como a identidade relativa à cidade que todos os indivíduos possuem desde a infância: os sentimentos de pertença territorial de tipo orgânico. Contudo, a influência produzida sobre o mesmo indivíduo pelos sistemas de comunicação de massas configura uma acção de natureza induzida que é catalizadora de novas referências culturais. Estas alterações foram sendo incorporadas nas rotinas sociais, cognitivas, culturais, políticas e económicas da vida dos cidadãos e das cidades. É este período intermédio, que medeia a criação de sentimentos de pertença territorial de tipo orgânico e os de natureza induzida, que configura uma dimensão histórica não negligenciável. Assim, a cidade é um conjunto de símbolos estratificados no curso dessa mesma história, que se define nas relações de duplo sentido: o simbolismo urbano condiciona a actividade social e a interacção de heterogeneidades contribui para a sua modificação (Fortuna &amp; Peixoto, 2002). A este processo não é alheia a crescente mundialização da cultura, portadora de tensões entre o local e o global, que põe a nu a relação da localidade – elemento fundamental da cultura como dimensão da vida quotidiana – com uma nova visão global e cosmopolita.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe um sentimento, consensual, que emerge de todas as revoluções tecnológicas operadas na última década: o sentimento de inovação. Esta relação causa/efeito, despoletada pelo enorme <em>melting pot</em> em que se transformou o mundo, deverá consolidar-se no espaço público, ou pelo menos deseja-se que assim seja. Contudo, o espaço público pós-moderno parece dar sinais claros de uma fragmentação do campo social. Hoje, as ruas e praças são mais canais de comunicação do que espaço de convívio. A emergência dos novos instrumentos de comunicação quebrou o nexo tradicional da sua relação. Um outro pólo de problemática advém do poder da economia e das organizações económicas que, no sistema capitalista globalizado, desligam-se de referências a localidades específicas. Dá-se, deste modo, a substituição de um espaço de lugares por um espaço de fluxos. Questiona-se então se a inovação esperada é uma força capaz de integrar, requalificar e unir os cidadãos em torno de um projecto comum de sociedade moderna.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão levantada pelo tecido difuso em que se tornou a sociedade contemporânea abrigará mais cépticos do que crentes:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p>À excepção de uma elite reduzida de <em>globopolitanos</em> (meio seres humanos, meios fluxos), as pessoas em todo o mundo ressentem-se da perda do controlo sobre as suas próprias vidas, o seu meio, os seus empregos, as suas economias, os seus governos, os seus países, e, em última análise, sobre o destino do planeta (Castells, 2007: 86).  <span class="cite">&mdash; Castells</span></div></div></blockquote></p>
<p style="text-align: justify;">A inovação postulada pelo progresso tecnológico, de carácter unificador, vê-se substituída pela moda, a nova arma urbana que configura igualmente novas formas de sociabilidade e identificação. São agora as tribos urbanas pós-modernas quem reconfigura o espaço público, vagueando unidas por impulsos emotivos temporais. Elas unem e excluem, agregam e contrapõem. Temos agora uma “(&#8230;) sociedade reestruturada de alto a baixo pela sedução do efémero, pela própria lógica da moda” (Lipovestky, 1989b: 19). O vínculo social da solidariedade mecânica que Durkheim conferiria às sociedades pré-modernas, e que auto- regulava os comportamentos individuais, encontra agora respostas nas numerosas redes de relações (Lipovestky, 1989a). Deveremos tentar recuperar, incondicionalmente, as dimensões pós-modernas que representam um certo revisitar do período pré-moderno, tentar retornar às identidades e à solidariedade mecânica (Eco, 1986). Poderão as cibercidades, como plêiade de redes de relações, despertar uma emergência de novos valores, um sentimento de multi- pertença? Daniel Innerarity coloca esta questão de uma forma esclarecedora:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p style="text-align: justify;">O problema que hoje enfrentamos consiste em como pensar a cidade quando temos redes em vez de vizinhança [...] quando há já muito tempo o debate público se efectua num espaço virtual, quando as ruas e as praças deixaram de ser os principais lugares de encontro e encenação. A questão consiste em saber se o espaço público , como espaço de experiência humana intersubjectiva, essencial à democracia, necessita de um tipo de espaço físico segundo o modelo grego, medieval, renascentista, burguês, ou se essa antiga relação entre civilização e urbanidade se pode realizar fora dos espaços da cidade clássica europeia (Innerarity, 2010: 136)  <span class="cite">&mdash; Innerarity</span></div></div></blockquote></p>
<p style="text-align: justify;">A cibercidade, para cumprir a sua função de pilar democrático, deve ser uma obra de equipas multidisciplinares constituídas por técnicos e humanistas (Lévy, 2000). Esta preocupação antropológica, que coloca em pé de igualdade <em>Humano</em> e <em>Andróide</em>, é essencial para a desmistificação do sentimento crescente da vitória da artificialidade sobre a natureza, questão, aliás, que remonta à fundação da cidade ideal e utópica – como na idealizada <em>República</em> de Platão – e que, inevitavelmente, se associa à dinâmica complexa das diversas redes tecnosociais (Castells, 2000). As cibercidades podem ser vistas como utopia – ou <em>u-cronia</em> pois o lugar (<em>u-topos</em>) está fora do tempo (<em>u-cronos</em>) –, mas também como distopias – nos casos de <em>1984</em>, <em>Metrópolis</em>, <em>Blade Runner</em>, <em>Matrix</em> –, o que reforça a ambivalência de um mundo cada vez mais tecnológico e a tentativa de superar os excessos de uma tecnocracia cada vez mais artificializante.</p>
<p style="text-align: justify;">O nascimento da cibercidade é profundamente concomitante com a convergência entre as novas tecnologias digitais de comunicação e informação e a estrutura urbana clássica: dá- se, desta forma, o aparecimento de uma “segunda ordem artificial”. Nesta nova ordem cabem as novas redes telemáticas e as tecnologias que delas derivam, como a internet, as redes sem fios, os sistemas de comunicação móveis, e outras possibilidades cibernéticas que alteram profundamente a dinâmica social. Contudo, estas subsistem na consistência material da estrutura urbana. Partilham o espaço com as redes de transporte, saneamento, energia e comunicação convencional, recebendo um estatuto híbrido que junta o físico e o imaginário (Westwood &amp; Williams, 1997). Zygmunt Bauman designará esta nova ordem, chamando-lhe a “modernidade líquida” (Bauman, 2000).</p>
<p style="text-align: justify;">Vimos já que as cibercidades são espaços híbridos. Pensamos ser pertinente, nesta altura, levantar a questão da substituição, ou não, do <em>espaço público de lugar</em> pelo <em>espaço público de fluxo</em>. Para dar resposta a esta questão, propomos que se analise, na actual sociedade, se a identidade cultural se desvia de uma base local para uma base difusa e global. Ainda que a recorrência a estereótipos para caracterizar os símbolos urbanos de uma comunidade possa fazer transparecer a cada vez mais frequente inexistência de manifestações homogéneas de uma identidade cultural, parece-nos existir uma partilha de experiência histórica dada no território físico. Sendo certo que, cada vez mais, a memória orgânica é substituída pela memória cognitiva – desde a escrita até às novas tecnologias –, na hora de apelar à identidade de um povo são os monumentos históricos edificados os que falam mais alto. Podemos então pensar – ou desejar – que nas cibercidades os espaços possam ser complementares, atribuindo-se ao espaço físico a forma mais usual de existência de uma sociedade. Para o debate em curso, gostaríamos ainda de acrescentar a significativa influência da utilização dos dispositivos electrónicos na promoção de manifestações no espaço físico. Casos de manifestações políticas mobilizadas através da rede, encontros reais entre cidadãos fomentados pelas salas de <em>chat</em> ou comunidades virtuais, compras <em>online</em> que despoletam fluxos de mercadorias que circulam pelas redes viária, ferroviária, aérea, são sinais mais do que claros da existência de sinergias que se estabelecem entre espaço virtual e espaço de lugar. Devemos tirar partido de uma nova estrutura rizomática que permita a horizontalidade e o fluxo livre de informação, o que faz da cibercidade uma cidade contemporânea, dotada de uma potente gama de redes de comunicação, que não prescinde dos grandes centros como pólos irradiadores das inovações e concentradores de capital e trabalho. Essas redes têm incentivado o crescimento de comunidades ligadas por um sentir cívico, combatendo o isolamento e adicionando uma nova dimensão ao espaço público (Lemos, 2000).</p>
<div>
<p style="text-align: justify;">Para atingirmos os desígnios de uma sociedade verdadeiramente integradora e instigadora de uma participação activa e democrática, deve esta nova relação ser entendida fora de um âmbito que recorra a um determinismo tecnológico e à dicotomia utopia/distopia. Este esforço deverá ser levado a cabo sem perder a noção das questões urgentes que esta nova realidade levanta. Por outras palavras, há questões a montante que devem ser acauteladas para que tal objectivo seja minimamente alcançado, ganhando capital importância a questão de como fazer da inter-relação de espaços uma ferramenta de redemocratização, de aquecimento do espaço público, de melhoria da cidadania e da vida social como um todo. A perspectiva tecnocrática não deverá sobrelevar às questões de índole cultural, económica e política da comunidade, caso contrário configuraria um quadro de exclusão digital (Lemos, 2000). Em simultâneo, deverão ser acautelados aspectos relacionados com relações assimétricas de poder, quer pela via económica, quer pela via do capital intelectual.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas sociedades industriais, o grau de inclusão era aferido pela posse de recursos materiais. Na sociedade da informação, são os recursos intelectuais quem fala mais alto neste domínio. Aqui levanta-se uma das questões anteriormente subentendida: a dificuldade levantada pelas desigualdades educativas dos cidadãos. Caberá ao poder político agir de forma a impulsionar iniciativas no sentido de alargar as tecnologias a toda a população. Contudo, quando se trata de questões de acesso à “aldeia global da informação”, duas dimensões devem ser equacionadas. Por um lado, a <em>agenda do acesso</em>, ligada às condições económicas das pessoas. Por outro, o <em>código do acesso</em>, que requer um capital cultural mediador da negociação de significado. À luz deste novo quadro problemático, a democratização do acesso à nova sociedade do conhecimento não prescinde de “(&#8230;) um passaporte económico, cultural e discursivo que, a determinado nível, torna mentira a erradicação de fronteiras na noção de aldeia global” (Gounari, 2009: 25). Emerge, das questões atrás levantadas, uma condição essencial para o sucesso das tecnologias de informação e comunicação: a convergência dos objectivos de acesso às ferramentas e de acesso ao código (Gounari, 2009). Eis que reside neste ponto a questão fulcral e óbice de uma profunda e autêntica sociedade reivindicativa e participativa. Se não forem resolvidas estas questões a montante, dificilmente evitaremos a gentrificação de um novo espaço público, construído a partir da soma de fluxos e de lugares:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p style="text-align: justify;">Embora uma minoria da população mundial se esteja a mudar para uma sociedade virtual, com todos os benefícios que desta se esperam, o resto da humanidade permanece num mundo de escassez material. Ao mesmo tempo que quantidades cada vez maiores de actividade comercial e cultural estão a mudar para a internet, a distância entre os ligados e os não ligados talvez esteja a criar um novo proletariado da informação global (Trend cit. por Gounari, 2009: 21)  <span class="cite">&mdash; Trend</span></div></div></blockquote></p>
<p style="text-align: justify;">Importará, para finalizar, salientar a grande dose de utopia que preside à pretensão da erradicação das barreiras económicas e sociais que separam cidadãos, povos e nações: “As sociedades actuais perderam aquela inocente homogeneidade de que se haviam revestido noutras épocas ignorando injustamente, por vezes, as diferenças que continham” (Innerarity, 2010: 166). Queremos com isto dizer, e a propósito do tema tratado, que não se hipotecarão as vantagens proporcionadas pelas novas formas de comunicação globalizadas a troco de um idealismo inatingível. Pelo contrário, será através dessas mesmas formas de comunicação que se procurará atenuar as diferenças, num processo tanto quanto possível abrangente, horizontal e despertador de uma nova consciência social.</p>
<h3 style="text-align: justify;"></h3>
<h3 style="text-align: justify;">Bibliografia</h3>
<p>Bauman, Z. (2000). Liquid Modernity. Oxford: Blackwell Publishing Ltd.<br />
Castells, M. (2000). A questão urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra.<br />
Castells, M. (2007). A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, Volume II: O Poder da Identidade (2a ed.). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.<br />
Eco, U. (1986). Viagem na irrealidade quotidiana (3a ed.). Lisboa: Difel.<br />
Fortuna, C. &amp; Peixoto, P. (2002). A recriação e reprodução de representações no processo de transformação das paisagens urbanas de algumas cidades portuguesas. In C. Fortuna &amp; A. Silva, Projecto e circunstância. Culturas Urbanas em Portugal. Porto: Edições Afrontamento.<br />
Gounari, P. (2009). A Democracia na Nova Era Tecnológica. Mangualde: Edições Pedago.<br />
Innerarity, D. (2010). O Novo Espaço Público. Lisboa: Teorema.<br />
Lemos, A. (2000). Cibercidades. In A. Lemos &amp; M. Palacios, Janelas do Ciberespaço. Porto Alegre: Sulina.<br />
Lévy, P. (2000). A inteligência colectiva: por uma antropologia do ciberespaço (3a ed.). São Paulo: Edições Loyola.<br />
Lipovetsky, G. (1989a). A Era do Vazio. Lisboa: Relógio D’Água.<br />
Lipovetsky, G. (1989b). O Império do Efémero. A Moda e o seu Destino nas Sociedades Modernas. Lisboa: Publicações Dom Quixote.<br />
Westwood, S. &amp; Williams, J. (1997). Imagining Cities. Scripts, signs, memory. London: Routledge</p>
</div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://cibermundos.net/cibercultura/cibercidades-um-novo-espaco-publico/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Video-jogos: o perigo de uma exposição massiva</title>
		<link>http://cibermundos.net/cibercultura/video-jogos-o-perigo-de-uma-exposicao-massiva/</link>
		<comments>http://cibermundos.net/cibercultura/video-jogos-o-perigo-de-uma-exposicao-massiva/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 20 Sep 2011 22:48:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[Jogos]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[Imagéitca]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://cibermundos.net/?p=286</guid>
		<description><![CDATA[Uma das possibilidades oferecida pela indústria dos video-jogos passa, hoje mais do que nunca, pela sua utilização em ambientes multiplayer, beneficiando das rápidas ligações de banda larga e recrutando cada vez mais jovens para uma experiência &#8211; outrora encerrada na disputa jogador-máquina &#8211; interactiva e o mais real possível. Hoje, desde terna idade, as crianças ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma das possibilidades oferecida pela indústria dos video-jogos passa, hoje mais do que nunca, pela sua utilização em ambientes <em>multiplayer</em>, beneficiando das rápidas ligações de banda larga e recrutando cada vez mais jovens para uma experiência &#8211; outrora encerrada na disputa jogador-máquina &#8211; interactiva e o mais real possível. Hoje, desde terna idade, as crianças utilizam consolas de jogos, transportando-as, inclusive, para as escolas. Se esta utilização massiva de produtos em que a imagem e o movimento rápido imperam pode ser benéfica nos primeiros anos de vida (Cf. Howard Gardner, <em>Arte, Mente e Cérebro,</em> 1999), o mesmo não poderá ser dito da sua utilização em idade escolar. Partindo de um <em>workshop</em> realizado na Faculdade de Filosofia de Braga, com a participação da Professora Adriana Baptista, da Escola Superior de Educação do Porto, com o título &#8220;Percepção, Leitura e Análise de Imagens&#8221;, explica-se a partir de uma base científica os possíveis efeitos nocivos de uma exposição exagerada ao movimento intenso das imagens video.</p>
<h3 style="text-align: justify;">Clique na imagem para ler o artigo</h3>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://ct1ete.net/imagem_pp.jpg" target="_blank"><img class="alignnone size-medium wp-image-288" title="imagem_pp" src="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/imagem_pp-300x219.jpg" alt="" width="300" height="219" /></a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://cibermundos.net/cibercultura/video-jogos-o-perigo-de-uma-exposicao-massiva/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Surplus Identity On-Line</title>
		<link>http://cibermundos.net/cibercultura/surplus-identity-on-line/</link>
		<comments>http://cibermundos.net/cibercultura/surplus-identity-on-line/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 19 Sep 2011 23:17:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade]]></category>
		<category><![CDATA[identidade online]]></category>
		<category><![CDATA[mundos virtuais]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://cibermundos.net/?p=277</guid>
		<description><![CDATA[Uma das questões que se levanta, pertinentemente, nos mundos virtuais, nas comunidades online  e outros lugares da rede &#8211; onde a dimensão física não reside -, é a forma como são geridas as identidades de cada um dos cibernautas. Na rede podemos ser o que quisermos. Somos independentes do género, da cor e dos atributos ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma das questões que se levanta, pertinentemente, nos mundos virtuais, nas comunidades <em>online </em> e outros lugares da rede &#8211; onde a dimensão física não reside -, é a forma como são geridas as identidades de cada um dos cibernautas. Na rede podemos ser o que quisermos. Somos independentes do género, da cor e dos atributos físicos que nos identificam. Hoje somos &#8220;ele&#8221;, amanhã &#8220;ela&#8221; e quem sabe, no dia seguinte, um qualquer híbrido com conotações pouco concomitantes com os padrões da sociedade em que vivemos. No fundo, a ausência de corporalidade permite-nos &#8220;encarnar&#8221; todo o tipo de <em>personas</em> (do grego πρόσωπον, personagem teatral) sem que, do outro lado, o nosso interlocutor tenha a possibilidade de confirmar a veracidade do nosso testemunho, da nossa afirmação ou do argumento apresentado. Esta necessidade de querermos ser quem efectivamente não somos derivará, porventura, da noção de mais-valia (surplus), da nossa necessidade de acumularmos poder, seja económico ou simbólico. Poder ser um líder religioso carismático, sendo-se na realidade ateu, ou um homem de negócios sucedido, quando na realidade se é recepcionista numa pensão de vão de escada, permite-nos acumular um capital de &#8220;liberdade&#8221; que sempre nos foi prometido pelo modelo capitalista. Aliada a esta ideia de mais-valia e de &#8220;liberdade&#8221;, levanta-se a questão da esquizofrenia do mundo virtual. Seremos nós, os cibernautas, pessoas com personalidades cibernéticas indissociáveis da vida real? Terá a esquizofrenia do mundo virtual alguma relação com o que somos verdadeiramente?</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.alternet.org/authors/2188/" target="_blank">Annalee Newitz</a>, jornalista norte-americana que reflecte sobre o impacto cultural da ciência e da tecnologia, escreve um interessante artigo sobre as identidades <em>online </em>e a sua relação com a vida fora do ciberespaço. <em>Surplus Identity On-Line</em> debruça-se sobre as <em>personas online</em>, a divisão da identidade  e a mais-valia do sistema capitalista. Uma visão muito própria que nos ajuda a reflectir e a  olhar o ciberespaço não como algo de isolado, mas como uma componente antropológica não passível de ser negligenciada.</p>
<div id="attachment_278" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><a href="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/300px-Annalee_Newitz.jpg"><img class="size-full wp-image-278" title="300px-Annalee_Newitz" src="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/300px-Annalee_Newitz.jpg" alt="" width="300" height="409" /></a><p class="wp-caption-text">Annalee Newitz</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<h1 style="text-align: justify;">Surplus Identity On-Line</h1>
<div style="text-align: justify;">
<p>Issue #18, January 1995</p>
<hr />
<p>When I log on to the Internet, one of the first things I do is finger my friends. Finger is a UNIX command which allows you to peek at another user&#8217;s account (you can also finger yourself, which I do often); when I write &#8220;finger annaleen@garnet.berkeley.edu,&#8221; I will see my office number, the date and time of my most recent login, some clever quotes I&#8217;ve put in my .plan file, and two versions of my name. Across the top of my account, it reads: Login name: annaleen; In Real Life: Annalee Newitz. I have had to alter my account to include my name in real life. Many accounts you finger will simply say, for example:</p>
<blockquote><p><span style="font-family: 'Courier New', Courier, monospace;">Login name: boop<br />
In Real Life: ???</span></p></blockquote>
<p>Sometimes this is because the user doesn&#8217;t know how to add her real name to the finger file. But sometimes it&#8217;s because the user wants to distinguish her on-line identity from real life so much that she refuses to divulge her real name to the casual fingerer.</p>
<h3>On-line Personas</h3>
<p>To me, the idea that Net identities are divergent from identities in the flesh is common sense. As a teenager in the mid-80s, I was part of a group of computer geeks who met on-line in a primitive version of what the Internet is today. Called WizNet, this local Orange County BBS sponsored e-mail and a multi-user chat capacity. Mostly, we met to chat, which meant that up to nine of us could log on and speak to each other. In chat, the screen looked like a play in the process of being written by its own actors. Each of us had an on-line alias (called a handle), and whenever we typed something it would appear after our handle, like so:</p>
<blockquote><p><span style="font-family: 'Courier New', Courier, monospace;">Gonif: Hi everybody, whats up with you today?<br />
Shockwave Rider: &lt;yawning&gt; I&#8217;m really bored. Do you guys want to see a movie later?<br />
Gandalf: I don&#8217;t want to see another one of those fucking art movies. Can we see <em>Terminator</em> again?<br />
Ectoplasm: Sounds good to me! &lt;grins happily&gt;</span></p></blockquote>
<p>As you can see, we could emote by putting our facial expressions or feelings in &lt;this format&gt;. We would change our handles if we wanted to appear as someone else. The Gonif, quite famous in on-line Orange County for his cracking skills, often came to WizNet undercover as Jeff&#8230; (with ellipsis), which was his name in real life (without ellipsis). Had he always come as The Gonif, he would have been inundated with questions from his fans.</p>
<p>The odd naming and speaking customs of Internet users have been well-documented by high tech journalist Howard Rheingold (<em>Virtual Communities: Homesteading on the Electronic Frontier</em>), Ed Krol (<em>The Whole Internet Users Guide and Catalogue</em>), and others. In the main, what has stuck with us from the days of WizNet and its ilk is a lingering sense that when we are on-line, we are somehow not ourselves. It is quite common for people to assert on Internet newsgroups or mailing lists that they behave very differently in real life. &#8220;Usually I&#8217;m very shy,&#8221; a person told me recently in e-mail, &#8220;but on-line I&#8217;m quite talkative.&#8221; I have never failed to be shocked, at some level, when meeting somebody in person after corresponding or chatting with them on-line. Rarely do they match my mental image of them, as bodies or personalities. I suspect that other people have had the same experience. Something about communicating on-line seems to change who we are and how we interact with others.</p>
<p>This is simply to say that one of the most prevalent customs of the on-line world involves changing our identities. Of course, we do not really become someone else on-line; what we are actually doing is splitting our identities into real life and on-line parts. On-line, we put a different face forward, as it were. We invent an on-line persona for ourselves. This persona may differ from us only insofar as it can access vast amounts of information and resources quickly. Or it may be a self we use to communicate socially, in which case it can take on personality traits unlike those we display in real life. That it is common to take on an on-line persona indicates how different we feel when we communicate in cyberspace — a medium which seems to erase our physical bodies.</p>
<p>Indeed, there are certain regions of the Internet (and other large-scale services like CompuServe or America On-line), where it is inappropriate ever to be yourself. Two regions in particular, known as MUDs and MOOs (multi-user dungeons and multi-user environments), require that each person participating become a character with fictionalized attributes. A MUD (based in part on the popular role playing games inspired by Dungeons and Dragons) works something like WizNet: your screen represents the dungeon and its inhabitants by writing a script of what is occurring. The entire MUD is built by its creators and users with various commands — it is an interactive environment, with a huge geography. Depending on where you go and who you go with, various adventures ensue. There are no graphics in MUDs or MOOs, hence your character sees this:</p>
<blockquote><p><span style="font-family: 'Courier New', Courier, monospace;">&gt; It is dark all around you. You can hear water running.</span></p></blockquote>
<p>In response, you might say:</p>
<blockquote><p><span style="font-family: 'Courier New', Courier, monospace;">&gt; Go west.</span></p></blockquote>
<p>And the computer will reply:</p>
<blockquote><p><span style="font-family: 'Courier New', Courier, monospace;">&gt; You are now at the top of a small hill, and can see a waterfall. A dryad looks at you shyly.</span></p></blockquote>
<p>If you meet another character (who is, like you, inhabiting a persona), you might see this:</p>
<blockquote><p><span style="font-family: 'Courier New', Courier, monospace;">&gt; Aethelrad: Would you like to go in search of some enchanted armor with me and my party? We have some magic users, and could use a warrior like yourself.</span></p></blockquote>
<p>To this, you might respond by looking at Aethelrad to see what kind of character he is, how much MUD experience he has, and what kind of gear he is wearing. Everyone&#8217;s character can be looked at in this manner, simply by executing a command such as &#8220;look Aethelrad&#8221;. Maybe you will go with Aethelrad and his party, or maybe you will just stop and talk to Aethelrad for a while.</p>
<p>MUDs — and MOOs especially — are as much social environments as they are games. People go to meet other people and talk. Conversations on the MOO I used to frequent (the Postmodern Culture MOO in North Carolina) brought people together from all over the world. Of course, I didn&#8217;t ever know their real names, nor did I know them. They didn&#8217;t know me either — my handle was &#8220;Human&#8221;, and if you looked at me, you would discover that I had no gender. MOOs and MUDs are famous for being places where you can become whomever you desire. People will cross-gender, or become another species, or simply assign attributes to themselves which they wish they had in real life. I have known many computer geeks, shy and awkward in person, who become brazen warriors on their favorite MUD, raping and pillaging like pros. Indeed, one of the clandestine activities of the MUD and MOO is cybersex, in which two personas make love to one another with words and &lt;gestures&gt;. Stereotypically virginal in real life, the geek or Net surfer can be as romantic and erotic as he wishes on-line, where no one sees him for who he really is.</p>
<p>This dissociation of a &#8220;real life&#8221; self from an &#8220;on-line&#8221; self can be similar to the separation we expect to exist between somebody&#8217;s face-to-face behavior and their written work. For instance, one might distinguish between Annalee-the-critic and Annalee-the-person, because when I write criticism I am far more careful and organized about what I say. For many people, the difference between their on-line persona and their real life identity boils down to such a distinction — they will claim that they are someone else on-line in the same way T.S. Eliot is one man in the flesh, and quite another in his poetry. You might say that the on-line / real life split identity exists on a kind of continuum: on one end, there are those who completely rebuild themselves on-line (such as going from Jeff the geek in real life to Aethelrad the warrior on a MUD); on the other end, there are those who feel they are different only insofar as written communication is different from face-to-face communication.</p>
<p>While there is some validity to the claim that we are not the same in writing as we would be in person, writing on the Net is not equivalent to writing an essay, poem, or novel. In general, writing on the Net — especially if you are chatting — is quite informal, often obscure and elliptical. It is hardly the mirror of formal writing, which is done alone and without a specific, individual reader in mind. Of course, some writing on the Net is formal, but this is not the writing I have in mind here. What I mean is the writing we do to each other on-line — the way we communicate ourselves to other people we know on the Net. If our on-line selves are so disconnected from ourselves in real life, how can we claim that interpersonal communication occurs at all in cyberspace?</p>
<h3>Split Identities</h3>
<p>To understand the importance of other selves in cyberspace, we need to step back a bit and consider what exactly we mean by &#8220;in real life&#8221; and the self who exists there. Obviously, &#8220;in real life&#8221; refers to how you appear physically, since you cannot literally be seen on-line. But it also indicates something about who you are in person — a set of behaviors which cannot be seen even in pictures — the way you express yourself verbally, your hand gestures, a certain demeanor.</p>
<p>Most importantly, perhaps, existing &#8220;in real life&#8221; means dealing directly with the material world. This may mean the sheer, physical fact of our racial, gendered, and sexual bodies and how other people react to them without bothering to learn about who we are as individuals. On a more general level, the material world is what Marx calls the realm of necessity, which requires us to eat, breathe, and sleep safely so that we may be healthy and reproduce as a species. Human labor, according to Marx, is most importantly an effort to escape the realm of necessity: we work in order to get beyond our material needs to the realm of freedom. In the realm of freedom, we can invent philosophies, sciences, identities, and societies which are not strictly material.</p>
<p>In a capitalist culture, where work means selling your labor time to someone else, it is hard to survive in the realm of necessity (real life) without developing what amounts to a split personality. Your personality and behavior change at work. You must smile at the customers and thank them even if you feel sad, or keep working in spite of your fatigue. Outside work, you are free, and often behave quite differently. You do this to survive, to make money.</p>
<p>Therefore, that we feel compelled to change ourselves in order to enter cyberspace is not due to the nature of cyberspace itself. Rather, it is an extension of the way our real life society operates. In everyday life, people are encouraged to split themselves: with two personalities, they can function more effectively at work, and then return home to play, to the family, to a club, etc. Quite simply, we are used to conceiving of different social environments — like cyberspace — as requiring us to be different people. In fact, one might argue that MUD and MOO identities are versions of the masks we wear in any work or public situation. On-line, we are more self-conscious (and perhaps more in control) of the masks we put on to meet people, but I would not want to argue that Aethelrad&#8217;s swordplay on a MUD is any less real than a CEO&#8217;s arrogant bluster at a meeting.</p>
<p>Considered in this light, it would seem that our on-line personas are just one more series of selves our everyday lives ask that we create in order to deal with a variety of situations. The difference between a cyberspace persona and an ordinary workplace persona is that it is one more step removed from material reality. Unlike a workplace persona, the cyberspace persona does not exist in a direct relationship to survival on any level. It is a surplus personality, a self we take on for pleasure or just because it seems right. We are no longer simply split between a &#8220;work&#8221; self and a &#8220;not work&#8221; self; we have a series of selves we put on which seem to serve no useful purpose. Mainly what these extra selves do is reassure us how distant we are from a realm of necessity in which we are all just biological organisms trying to survive.</p>
<p>Perhaps, as Alvin Toffler muses in <em>Future Shock</em> (1971), contemporary life calls for a new kind of consciousness, one which seems crazy to us now. This new form of consciousness, which is basically schizophrenic, does not require that we be a whole self. Describing the development of virtual reality economies (like those associated with cyberspace), Toffler asks:</p>
<p>What happens when an economy in search of a new purpose, seriously begins to enter into the production of experiences for their own sake, experiences that blur the distinction between&#8230;the simulated and the real? One of the definitions of sanity, itself, is the ability to tell real from unreal. Shall we need a new definition?</p>
<p>Toffler&#8217;s questions suggest that we may be clinging to outdated definitions of sanity. We should not worry about whether our behavior on-line is true to who we are because the idea of &#8220;real&#8221; is itself meaningless. Nor should we wonder at an economy which encourages us to forget the distinction between material reality and virtual reality. Confusion about who we are and what is real, Toffler claims, are not danger signs, however frightening and upsetting they may appear. But offering schizophrenia as a solution we might embrace is essentially to propose that we enjoy a state of mind that clearly alarms us.</p>
<h3>Against Surplus</h3>
<p>I would argue that our confusion about what constitutes &#8220;real life&#8221; does not come from virtual and simulated technologies themselves, but something fundamental to the way capitalist ideology encourages us to structure our identities. In order to induce people to work, capitalism promises them freedom from necessity. This is not unlike what any economic system might promise. But, in capitalism, the promise goes beyond simply freedom from necessity. It is a promise of surplus, or absolute transcendence of the realm of necessity. We find the allure of surplus everywhere in capitalist societies: capitalist production generates surplus value; advertising seduces us with surplus pleasures; and at present cyberspace promises us surplus identity.</p>
<p>Capitalism is a system which tries to deny that the realm of necessity exists by focusing our attention on the accumulation of things and sensations which are not necessary for survival. Thus the person in a capitalist culture avoids remembering that she works to survive by concentrating instead on working for a surplus of free time known as leisure. She also obscures the relationship between work and survival by inventing a false relationship between work time and free time (play time). Those who embrace capitalism claim that its beauty as a system resides exactly in an ability to produce such surpluses of luxury and progress. Ironically, no one seems to remember that if we worked simply to survive we would have far more free time than we do at present. Surplus labor (extra work) is required to produce surplus value. And ultimately, for most people, overwork is what drives them to seek out leisure cultures — such as those in cyberspace — which promise an escape from the real world.</p>
<p>Indeed, Henri Lefebvre argues in his <em>Critique of Everyday Life</em> that the relationship we set up between work and leisure is, in fact, a warning to us that our everyday life is deeply alienating. Why invent leisure if work is fulfilling? And why work so hard to have fun? We work to earn our leisure, and leisure only has one meaning: to get away from work. &#8220;A vicious circle,&#8221; Lefebvre writes. Work and leisure identities, trapped in a vicious circle, are not as separate as we might like to believe. Seen from this angle, Toffler&#8217;s new definition of sanity is just wishful thinking. In the end, he is merely demonstrating that it is easier to be insane than to experience a unified identity in contemporary capitalism.</p>
<p>To a certain extent, I want to suggest that capitalism — and its attendant phenomena like cyberspace — keep us crazily lusting after surplus in order to distract us from criticizing what it represents. In this instance, it represents a force which is obstructing us from understanding how our work is inexorably linked to our survival as a species in the material world. Without a link to the material world, our work comes to seem meaningless. We work hard so that we can get more work, and more money, and perhaps a better job in the future. Rather than genuinely enjoying the fruits of our labor, we are burdened with the constant question, &#8220;How can I get more?&#8221; In a culture of surplus value, freedom is understood to mean possession: the more objects you own, the freer you are. Perhaps we think of ourselves as &#8220;free&#8221; in cyberspace because having an account on the Net allows you to own yet another extra space, and a new version of yourself in it.</p>
<p>Ultimately — and, perhaps, sadly — the freedom to be someone else on-line is an illusory freedom. We do not escape real life on-line, anymore than we escape the realm of necessity by working 40 or more hours a week. Getting a different name, leaving your body behind, or writing rather than speaking do not mean you are any less the person who has to get up at 6:00 am to make your morning commute. Nor will it be any easier for you to deal with your physical characteristics if you can pretend sometimes, on-line, that you do not have any. Inventing a self on-line which contradicts other aspects of your identity only perpetuates the problems we associate with real life and its vicious circles. Cyberspace personas do not free us; they doom us to an endless series of half-lives and partial selves which cannot adequately express who we are and what we desire.</p>
<p>If we are not required to desire anything other than the elusive surplus promised to us, our identities themselves seem to hinge upon useless accumulation. We are taught, in effect, that our essences are constituted by the act of acquiring more selves. Rather than acknowledging that we are physical beings dependent upon the material world to survive, we fool ourselves into thinking that basic, healthy survival is somehow animalistic, and hence degraded. Owning as many selves as possible is supposed to be the measure of our freedom. Were we to have more time to think, rather than to perform surplus work, I believe we would wish for a society in which material reality is not so radically removed from the rest of our lives. We might yearn for and begin to build a society in which we do not wish to become someone else — on-line or anywhere — because we are generally satisfied with our identities in real life.</p>
<p>I am confident that we desire a world like this because, as human beings, we are always searching for ways to reimagine ourselves and our relationships with each other. Society on the Net reminds us that we want be changed, both as individuals and as a community. It is true that the ways people alter their identities on the Net are not always Utopian or progressive. But sometimes, a new culture like that found in cyberspace gives us a taste of what the world would be like if we were to change what we are by becoming who we want to be. One day, perhaps, we will know what it is to experience our identities as the unity of necessities met and freedom gained. We will always have separate selves and different parts to our personalities. But hopefully we will not always accumulate surplus identities to forget who we really are and the life we have in common with one another.</p>
<p><tt>Annalee Newitz is a freelance writer and Co-Production Director for Bad Subjects. She is currently completing her Ph.D. in English at UC-Berkeley, writing her dissertation on monsters and psychopaths in American popular culture.</tt></p>
</div>
<p style="text-align: justify;">Copyright © by Annalee Newitz 1995. All rights reserved.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://cibermundos.net/cibercultura/surplus-identity-on-line/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A comunicação no sistema de rede: um novo paradigma</title>
		<link>http://cibermundos.net/cibercultura/a-comunicacao-no-sistema-de-rede-um-novo-paradigma/</link>
		<comments>http://cibermundos.net/cibercultura/a-comunicacao-no-sistema-de-rede-um-novo-paradigma/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 18 Sep 2011 21:51:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[Novos Media]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://cibermundos.net/?p=254</guid>
		<description><![CDATA[Inevitavelmente, a reconfiguração operada nas últimas décadas no sector das tecnologias de informação e comunicação – à qual a profusão de novas plataformas de interacção não é alheia – vem levantar novas questões no que diz respeito ao papel dos media na sociedade, num cenário em que as possibilidades abertas pela comunicação interpessoal operam transformações ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/arte_interativa.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-270" title="arte_interativa" src="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/arte_interativa.jpg" alt="" width="320" height="212" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Inevitavelmente, a reconfiguração operada nas últimas décadas no sector das tecnologias de informação e comunicação – à qual a profusão de novas plataformas de interacção não é alheia – vem levantar novas questões no que diz respeito ao papel dos <em>media</em> na sociedade, num cenário em que as possibilidades abertas pela comunicação interpessoal operam transformações tão importantes quanto as registadas pela invenção da imprensa nos alvores da modernidade, época em que a co-presença física era imprescindível para o estabelecimento do processo de comunicação. Dir-se-á, sem quaisquer dúvidas, que as transformações agora observadas são de peculiar importância e relevo, porquanto elas refazem a escala de coordenadas espácio-temporais de uma forma indelével e significativa, alterando o processo de construção do “real”. Este novo tempo, a que Castells(1) chama o “tempo atemporal”, é responsável por uma nova consciência social que põe em causa o papel das instituições, diluída que está a influência de uma comunicação outrora feita num processo vertical, em massa, e que circunscrevia o “universo” de cada um de nós a uma pequena parcela da sua actual dimensão. Nunca, como agora, o efeito social dos meios de comunicação na conformação e transformação da realidade, enquanto mediadores, se viu – ou se julga – tão atenuado e mesmo mediado por novos actores sociais que se movimentam nos mecanismos rizomáticos de interacção, emergindo do centro de um novo paradigma comunicacional: o sistema de rede.</p>
<p style="text-align: justify;">As profundas mudanças que tal sistema reticular suscita serão responsáveis pela segmentação de canais e de audiências, contribuindo para um processo cada vez maior de retroacção, despoletando novos meios e acções, e metamorfoseando o papel do cidadão enquanto agente do sistema comunicativo. Dão-se novos modos individualizados de acesso à informação, proporcionados por um ambiente digital que concorre para a criatividade, iniciativa, abertura ao novo e valorização das relações de horizontalidade. A mudança de hábitos no sistema de consumo da informação é geradora de uma mudança contextual, podendo falar-se de um novo modelo comunicacional – ou quarto modelo –, consistindo na comunicação globalizada constituída pela ligação em rede entre <em>media</em> de massa e <em>media</em> interpessoal. O novo paradigma, baseado na importância da imagem em movimento, acentua uma anunciada crise instalada nos media tradicionais – mormente no sector da imprensa escrita – e que se traduz na diminuição abrupta de consumidores, na redução drástica do número de profissionais das redacções, na fragilidade dos vínculos laborais e na cada vez maior emergência de <em>freelancers</em> (Cardoso, 2009a).</p>
<div style="text-align: justify;">
<p>Perante o novo cenário, julgar-se-á o papel do jornalista despiciendo, rejeitando-se a especificidade epistemológica do jornalismo e esvaziando-se a sua centralidade como operador de descodificação e recodificação de conteúdos informativos. É precisamente no âmbito da rejeição da ideia de desvanecimento da sua importância que se situa o <em>corpus</em> deste trabalho, não deixando, contudo, de postular uma premente necessidade de mudança e de adaptação que vá de encontro – e dê resposta – aos desafios colocados pelo reestruturado mapa comunicacional.</p>
<p>Assim, este trabalho divide-se em três grandes áreas de reflexão. Na primeira, procuraremos fazer uma abordagem sociológica da passagem da comunicação de massas à comunicação em rede, salientando e justificando a improvável influência dos <em>media</em> nos mecanismos de comunicação interpessoal e nos processos sociológicos de construção da ideia de espaço público. Analisaremos os novos processos de mediação, a falsa ideia de poder e a emergência do individualismo. Seguidamente, reflectiremos sobre a revisão de processos em curso no jornalismo, sem que isso implique a diminuição do peso das indústrias culturais no condicionamento da agenda mediática. Abordaremos igualmente o surgimento de novas tendências, nomeadamente as que colocam o indivíduo no centro do processo informativo. Por fim, apontaremos possíveis caminhos para que os jornalistas e o jornalismo possam inverter os rumos que são percorridos no presente, não voltando costas à inevitável reconfiguração de meios à disposição para a circulação de mensagens.</p>
<p>Nesta nova dinâmica reticular, que proclama a diluição da mediação em favor de uma nova organização pessoal, reconfigura-se o papel do jornalismo – e do jornalista –, cabendo-lhe constituir-se como o último reduto do argumento de autoridade e da redefinição da agenda mediática, sempre com olhos postos num objectivo primordial: a vitória do conteúdo sobre a forma.</p>
<p><strong>DA COMUNICAÇÃO DE MASSAS À COMUNICAÇÃO EM REDE</strong></p>
<p><strong>A importância dos <em>media</em> no novo sistema comunicacional</strong></p>
<div>
<p>O novo modelo comunicacional que, desde o último terço do século XX, se tem vindo a implementar, configura um sistema dicotómico: a confluência da comunicação de massas e da comunicação em rede. Desta forma, a comunicação imediata recebe os inputs da rede informativa mediatizada, alargando-se o espaço de percepção directa do mundo. Esta possibilidade cumprir-se-á sempre que se reúnam os dispositivos que garantam os mecanismos transversais e bidireccionais (disseminação pela estrutura social), a polivalência expressiva (mensagens de natureza verbal e de natureza imagética), a polivalência funcional (integração de mensagens noticiosas, publicitárias, lúdicas, artísticas, políticas e económicas), a alimentação em permanência da rede informatizada e a existência de instâncias supranacionais de gestão do sistema integrado de informação (Rodrigues, 1994).</p>
<p>Com base nestes pressupostos, consideram-se os meios de comunicação de massa – a televisão, a rádio e a imprensa escrita –, actuando no seio das redes, como fundamentais para o processo de constituição de uma identidade social onde, e contrariando uma ideia generalizada, ainda impera a “(&#8230;) relação assimétrica que se exerce através de e sobre o sentido” (Silva, 2009: 59). Comprovadamente, os efeitos sociais dos <em>media</em> são mais poderosos do que, à partida, poderíamos ser levados a pensar, agora que nos encontramos numa época que Giddens definiria como a “modernidade tardia”: esta sociedade “pós-moderna” baumaniana, que possui tanto de pejorativo como de virtuoso, e que herda uma centralidade antropológica que se esfuma no vazio de um niilismo capaz de dispensar laços de pertença e de projecto.</p>
<p>Neste caminhar em direcção ao vazio, à completa “vontade de nada” – tal como previra Nietzsche –, os meios de comunicação continuam a proporcionar “(&#8230;) a coesão social mínima sem a qual uma sociedade seria impensável” (Innerarity, 2010: 87). Eles configuram e determinam o nosso espaço de referência – o espaço público – formulando problemas e definindo quadros de percepção. Será este espaço o idealizado pelas teorias da comunicação, e que a hipótese clássica do <em>agenda-setting</em> levaria a supor a partir de uma descrição e precisão da realidade exterior (Wolf, 2009) ou, tal como problematiza Daniel Innerarity, existirá uma lógica de construção que é imprescindível conhecer para que não se confunda “(&#8230;) a ideia normativa de espaço público com a opinião pública” (Innerarity, 2010: 87) que os meios de comunicação parecem configurar? Poderão as novas formas de mediação ajustar estes dois conceitos?</p>
<p><strong>A reconfiguração das sociedades pelas novas formas de mediação</strong></p>
<div>
<p>Na nova amálgama mediática, somos levados a procurar formas mais criativas de conceptualizar a realidade, capitalizando os benefícios de uma possível “Teoria da Confusão” na construção de sentido (Watzlawick, 1991). Tal posição construtivista é precisamente a que está na base de um efeito de retroacção cada vez mais poderoso e que hoje, como nunca, exerce igual influência sobre os <em>media</em>: “Os efeitos dos <em>media</em> são poderosos [...] O seu poder é, no limite, a hegemonia, o poder simbólico. Mas estes efeitos são indirectos e limitados; e os <em>media</em> que influenciam os actores e as suas práticas são os mesmos media, estruturados em campo, sujeitos à influência dos actores e das práticas” (Silva, 2009: 65).</p>
<p>É perante esta reconfiguração que a sociedade em rede introduz, catalisadora de antigas formas e modulações, que devem ser analisadas as necessárias mudanças para que os processos sociológicos que decorrem da comunicação possam beneficiar de um renovado olhar reflexivo – a montante e a jusante – que abra caminho a uma enriquecida dialéctica entre estrutura e acção. Os novos processos de mediação são agora os responsáveis por uma nova organização de comunicação em rede, relegando para um segundo plano a convergência tecnológica e colocando nas mãos do cidadão a organização e o desenvolvimento do sistema: é o modo como nos apropriamos socialmente dos <em>media</em> que os determina (Cardoso, 2009b).</p>
<p>Pelo atrás referido, queremos salientar que a análise dos desempenhos tecnológicos não é, de facto, o que importa analisar, mas sim a natureza das novas relações. Tecnologicamente, estaremos munidos de todos os instrumentos que nos permitem pensar ter sido encontrada a fórmula para uma sociedade mais participativa e consciente dos assuntos que verdadeiramente interessa discutir. Uma sociedade que saiba adequar o espaço público e a opinião pública. Contudo, ter esse facto como adquirido é ignorar uma forte componente ambivalente, típica da sociedade pós-­moderna, e que nos coloca perante a percepção já anteriormente tida, em 1909, por Charles Cooley(2): “o rápido desenvolvimento dos meios de comunicação, a que assistimos no nosso tempo, cria a base para uma sociedade mais aberta e livre, ao mesmo tempo que, pela desorganização das relações estabilizadas e pela atenção fixa às fases mecânicas do processo, possibilita as condições para a confusão e para a injustiça que se opõem à liberdade” (Cooley, 1992: 55 [trad. nossa]”.</p>
<p><strong>A ilusão do poder</strong></p>
<div>
<p>Até ao momento, as reflexões sobre o modelo comunicacional que se vai moldando ao ritmo do desenvolvimento tecnológico apontam para a continuidade do papel significativo dos meios de comunicação de massa na mediação que refaz, transforma e reconfigura o tecido social. Em certa medida, o fio da história não se terá quebrado, mas apenas sofrido uma alteração de forma (Silva, 2009). Soa estranho que se contradiga a tendência para expurgar a própria noção de poder que a ideia de um prometido mundo sem mediadores preconiza, principalmente quando parecemos os condutores do nosso próprio destino, munidos que estamos de mecanismos de expressão e disseminação de informação potencialmente emancipadores. Esta contradição recupera uma questão ainda não levantada, mas que importa salientar, pois trata-se de um tema fracturante que coloca de um lado os apologistas de uma nova era de mediações e, do outro, os que reclamam a saída das mesmas.</p>
<p>Se optarmos pela primeira das abordagens, ou seja, um mundo onde as mediações se podem tornar infinitas, estaremos a entrar no domínio dos teóricos da gestão global: as mediações infinitas “(&#8230;) convocam uma gama tão extensa de protagonistas que o ‘tecnossistema’ mundial atingiu um nível de complexidade que o tornou acéfalo e, portanto, ninguém é responsável” (Mattelart, 2002: 140). A segunda, colocar-nos-ia num cenário onde as fricções se dissipariam, e onde o <em>empowerment</em>(3) se encarregaria de libertar-nos das garras do Estado-Nação. Qualquer das posições expressas enferma de um radicalismo que convirá afastar de uma ponderada reflexão dos fenómenos da nova realidade comunicacional. Numa análise atenta ao comportamento dos protagonistas do sistema de comunicação em rede, verifica-se a forte tendência para a replicação das maneiras de pensar e agir observáveis nos meios de massas, bem como das próprias representações e posições do mundo que estes veiculam (Silva, 2009). Nasce assim uma ilusão de poder, de encantamento do mundo, que promete ser a panaceia para o jugo da mediação: “é uma ingenuidade pensar que temos acesso imediato ao mundo por experiência própria” (Innerarity, 2010: 89).</p>
<div>
<p>Com estas reflexões pretendemos evidenciar que, apesar de existirem motivos de sobra para que não ignoremos as implicações que o redesenhar das interacções no processo de comunicação aporta, o papel do meios de comunicação de massa é mais importante do que, no mundo de hoje, somos levados a imaginar.</p>
</div>
</div>
</div>
</div>
<p><strong>A emergência do individualismo</strong></p>
<p>As sociedades modernas vivem hoje uma realidade praticamente consensual e assumida: a de que o individualismo impera como um dos valores estabelecidos e inalienáveis. No que ao tema deste trabalho diz respeito, será oportuno tentar reflectir sobre a contribuição dos media para a consolidação deste estatuto, tendo em conta a sua natureza de sistemas organizados para a produção e circulação de significados. As formas simbólicas que veiculam, sendo fonte de socialização, condicionam a sociedade e, consequentemente, por dela não se poder separar, o indivíduo. Segundo John B. Thompson(4), “(&#8230;) com a crescente disponibilidade da experiência mediatizada, o projecto do eu moderno persiste em afirmar-se, em muitos aspectos, como projecto simbólico por excelência” (Ferreira, 2009: 155). Ainda segundo Thompson, trata-se de um processo de recepção de formas simbólicas que não se reduz a uma assimilação passiva, mas antes a um processo criativo de interpretação e de avaliação, o que configura um processo narrativo de auto-identidade, reflexivo, e construído pelo indivíduo a partir dos recursos culturais que a sociedade disponibiliza (Ferreira, 2009).</p>
<p>Nesta dialéctica de construção de conhecimento, através de um processo reflexivo, residem dois pólos distintos, mas complementares: a produção e a recepção simbólicas. Na transmissão simbólica mediatizada, criam-se novas formas de acção e de interacção que proporcionam novas alternativas ao indivíduo: “até para a pessoa mais preconceituosa e de visão estreita, o contacto regularizado com a informação mediada, inerente à vida do dia a dia de hoje, é uma apropriação positiva, um modo de interpretar informação dentro das rotinas da vida diária” (Giddens cit. por Ferreira, 2009: 156). Mas uma “apropriação positiva” só é possível numa perspectiva de menor controlo, ou seja, tendo como adquirido o afastamento de manipulações tecnicistas ou ideológicas. Vê-se, deste modo, a comunicação reticular como potenciadora desta postulada reflexividade, colocando o indivíduo “transceptor”, potencialmente – ou virtualmente –, no centro do processo comunicativo: “(&#8230;) é inegável que as tecnologias da comunicação vêm promover uma multiplicação de contactos e de conhecimentos cujo resultado principal será, inevitavelmente, a mudança gradual nas condições sobre as quais se estrutura e funciona a subjectividade” (Ferreira, 2009: 157).</p>
<div>
<p>Caberá reflectir um pouco sobre se esta nova possibilidade da construção do <em>self</em> se libertou, na pós-modernidade, do sempre presente condicionamento que desde o século XVIII tem vindo a “obstruir” o processo de autonomização individual(5). Parece visível que, cada vez mais, o indivíduo se desliga das instituições, cultivando a sua individualidade e afirmando-se através do desinteresse na coisa pública. Assistimos a uma mudança epistemológica que concede ao individual o que, outrora, fora concedido ao colectivo. Importa, contudo, questionar se esta mudança opera num único sentido, isto é, se o que se verifica é a construção do <em>Eu</em> através do já falado processo reflexivo.</p>
<p>A Sociologia tem vindo a dar conta de tentativas do indivíduo em manter a independência e a individualidade face ao peso da herança histórica e da cultura exterior (Simmel, 1984). Segundo Gilles Lipovetsky, “os valores hedonistas, a oferta cada vez maior de consumo e de comunicação e a contracultura concorreram para a desagregação dos enquadramentos colectivos [...] Em termos históricos é uma segunda revolução individualista que está em curso, instituindo desta vez um individualismo acabado e extremo: um hiperindividualismo” (Lipovetsky, 2010: 60). Uma virtualidade que se vê ofuscada pela moda e pelo consumo, fenómeno a que não são alheios os media, e que abre caminho à “civilização do desejo” (Lipovetsky, 2009). Nesta profusão materialista, dilui-se, paradoxalmente, o indivíduo, perante uma “(&#8230;) hipersensibilidade à coisificação e reificação” (Correia, 2001: 2), num jogo de ambivalências que faz pairar alguma instabilidade sobre a definição de sujeito – o que consolida a ideia cada vez mais presente de virtualidade –, entendida como “potência em si”, mas que não passará disso mesmo.</p>
<div>
<p>Constata-se, através das reflexões já encetadas, a existência de condições capazes de potenciar uma verdadeira emergência do indivíduo informado, culto e em processo permanente de construção. Contudo, tal é contrariado pela análise atenta dos comportamentos cada vez mais miméticos a que assistimos na cultura de rede. A comunicação entre os indivíduos é cada vez mais pautada por códigos de linguagem que não fazem mais do que reproduzir estereótipos, homogeneizando a crescente ilusão de diversidade. Esse sinal é visível através da constatação de que, hoje, a maior parte do que dizemos e veiculamos pela escrita e pela comunicação verbal – face-a-face ou em rede – não é mais do que a mera reprodução de frases ou ideias que procedem das chamadas “figuras públicas”, e que sustenta a noção de uma cultura de celebridades: a “universalização do vedetariado” (Lipovetsky, 2010: 100).</p>
<p>A “cultura do vedetariado” gera uma vaga de fascinação baseada na promoção da imagem pessoal, na obliteração do interesse comum, e na construção de uma imagem de marca cada vez mais pretensiosa, que vê na ascensão da popularidade a satisfação de um ego inflacionado pelo desejo da fama: “a presença nos meios de comunicação torna possível atrair muito mais atenções que a simples presença pessoal” (Innerarity, 2009: 135). Atingimos o ponto em que o efémero e o superficial dominam a actualidade e, pior do que isso, deles é feita a notícia, assistindo-se, impávida e serenamente, ao culto do individualismo levado à sua acepção mais ridícula e irrisória: vivemos a lógica do mercado dos proeminentes, “(&#8230;) que poderíamos definir como o círculo das pessoas que se caracterizam por ser conhecida de mais gente que aquela que conhecem” (Innerarity, 2009: 135). Estamos hoje, indubitavelmente, perante o culto do narcisismo, essa “(&#8230;) nova tecnologia de controlo flexível e autogerido, [que] põe os indivíduos de acordo com um social pulverizado, glorificando o reino da plena realização do Ego puro” (Lipovetsky, 1989: 53).</p>
</div>
</div>
</div>
<p style="text-align: justify;"><strong>O JORNALISMO NA MUDANÇA DE PARADIGMA</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Uma inevitável revisão de processos</strong></p>
<div>
<p style="text-align: justify;">A investigação nos domínios científico e tecnológico tem permitido, nas últimas décadas, uma revolução nas formas de comunicar. As evoluções registadas desencadeiam uma nova consciência da dimensão do valor da informação ou, se quisermos, do seu acesso, a que não é alheio o aparecimento da mãe de todas as redes: a Internet. Neste novo paradigma, o jornalismo – que já lidara com a massificação do uso da rádio e da televisão – depara-se com profundas alterações no seu campo de intervenção. Cedo se percebem as implicações profundas de uma autêntica revolução digital que opera mudanças estruturais na forma como é distribuída a informação e que constrói um paradigma comunicacional portador de uma multilateralidade de processos. A Internet não só está a criar novas formas de jornalismo, como a alterar a noção tradicional de jornalista (Araújo, Neto, Cheta &amp; Cardoso, 2009).</p>
<p style="text-align: justify;">Parece claro, e inevitável, estar em curso uma revisão de processos que não pode, nem deve, ser negligenciada. Quer na perspectiva revolucionária – que sustenta o acesso directo às fontes de informação –, quer na perspectiva evolucionista – que é defensora da imprescindível função mediadora do jornalista –, a Internet passou a fazer parte indissociável do jornalismo. Se por um lado ela altera os modos de acesso à informação por parte dos utilizadores, por outro, ela constitui uma importante ferramenta para o jornalista, fornecendo-lhe a “(&#8230;) possibilidade de contactar rápida e eficazmente colegas de profissão e fontes de informação [e permitindo-lhe] ganhar tempo nas fases de pesquisa e contactos” (Araújo et al., 2009: 70).</p>
<p style="text-align: justify;">Novos caminhos se abrem com a possibilidade de uma informação virtualmente imediata. Nasce um novo tipo de jornalismo – o jornalismo de memória – que possibilita, pela forte capacidade de indexação, o acesso ao historial completo de determinado fenómeno. Os motores de pesquisa permitem o cruzamento e a multiplicação da informação na cosmopolita e superlotada rede, aliciando o outrora passivo consumidor de informação na aventura, quiçá quimérica, de ele próprio se tornar um jornalista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A era do <em>user-generated content</em></strong></p>
<div>
<p style="text-align: justify;">As novas implicações em curso não se limitam a questionar o processo de mediação tradicional no consumo da informação. A rede veio permitir que as próprias audiências se transformassem em fornecedores de conteúdos, acabando com a situação de monopólio que pesava sobre os meios de comunicação tradicionais. Entrámos na era do <em>user-­generated content</em>, o que levanta novas questões de cariz epistemológico. Estarão os fundamentos do jornalismo, de facto, reformulados? Poderá a Internet colocar em causa o papel tradicional do jornalismo? (Araújo et al., 2009).</p>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos anos vários adeptos de um “jornalismo de base”, que se crê detentor da verdade, têm reclamado uma informação livre da manipulação do poder político e económico. Inspirados pelo livre acesso à informação, eles apregoam a apologia do jornalismo-cidadão: “(&#8230;) as normas por que se regem as fontes, e não só os jornalistas, mudaram, graças à possibilidade de toda a gente produzir notícias” (Gilmor, 2005: 59). Estaria assim resolvida uma das questões mais importantes da mediação – a questão do poder –, ao abrigo do nascimento da ideia de um jornalismo feito por todos e para todos, que coloca jornalista e cidadão em igualdade. Nesta concepção individualista de informação, não há lugar para o processo social balizado pelos jornalistas (Fidalgo, 2009).</p>
<p style="text-align: justify;">Desde logo, não são despiciendas, por via da globalização da comunicação, as noções de “fronteira” e de “reserva” a que alude Umberto Eco (Eco, 2007). A toda a hora e em qualquer lugar, todos têm acesso a tudo, inclusive, nos regimes ditatoriais. Um fenómeno bem recente da inexistência de barreiras no acesso à informação, e que ilustra bem o conceito de “reserva”, é o da <em>bloguista</em> cubana Yoani Sánchez. Considerada uma das dez pessoas mais influentes do mundo, no ano de 2009, pela revist<em>a Time,</em> Yoani veicula, através do seu blogue, a sua visão do quotidiano de Havana: “baptizo o meu novo espaço catártico de <em>Generación Y</em>, um blogue inspirado em gente como eu [...] Publico, na Internet, uns comentários breves – que a seguir irão parecer-me ingénuos e aborrecidos – e já ultrapassei o limite” (Sánchez, 2010: 14-­‐15). Estão assim desafiados os limites do conhecido e redefinidas as noções de mediação.</p>
<p style="text-align: justify;">O jornalista não está mais só no novo processo comunicacional. A sua tarefa é agora complementada com a acção do internauta, num modelo que, segundo Gustavo Cardoso, assenta em quatro novas dimensões (Cardoso, 2009b: 36):</p>
<p style="text-align: justify;">          Retórica construída essencialmente em função da imagem em movimento</p>
<p style="text-align: justify;">          Novas dinâmicas de acessibilidade da informação</p>
<p style="text-align: justify;">          Utilizadores como inovadores</p>
<p style="text-align: justify;">          Inovação nas notícias e nos modelos de entretenimento</p>
<div>
<p style="text-align: justify;">É em torno da componente visual que gira o mundo mediático de hoje, um facto, quanto a nós, que constitui um problema preocupante e que não resulta da utilização do vídeo como complementar à escrita tradicional ou à retórica oral, mas do abuso da sua utilização. O recurso indiscriminado à imagética contribuirá decisivamente para uma preocupante diminuição do nível de abstracção necessário à reflexividade e ao auto-questionamento (Sartori, 2000). Em suma, a dose de perplexidade imprescindível à construção de um raciocínio crítico é “engolida” pela imagem: hoje tudo nos é oferecido, para consumo imediato, sem margem para a dúvida.</p>
<p style="text-align: justify;">Desta reformulação tecnológica ressalta ainda uma outra transformação: em plena Sociedade da Informação, valoriza-se não a notícia, mas o acesso à informação; dá-se a transformação do ideal público de “pessoa informada”. Neste novo ideal, pessoa informada “(&#8230;) é alguém que sabe produzir conhecimento a partir de todas as notícias disponíveis, em diferentes <em>media</em>, com diferentes profundidades de análise, e que as pode, e sabe, cruzar com análises mais extensas sobre diferentes assuntos” (Cardoso, 2009a: 20 [itálico nosso]). O novo figurino pressupõe a existência de novas tendências que apontam para uma mudança nos contextos informativos: a abundância da oferta (canais, título e tecnologias), a fragmentação do consumo por parte do público, o desenvolvimento de portefólios (produtos variados) e a mudança no equilíbrio de poder entre produtor e consumidor (Cardoso, 2009a).</p>
<p style="text-align: justify;">Com base nas transformações sugeridas por Cardoso, o jornalista enfrenta a crescente concorrência do utilizador, tido que é como “(&#8230;) fomentador de inovações e inovador nos conteúdos de <em>media</em> a serem lidos, ouvidos ou visionados por outrem” (Cardoso, 2009b: 40). As transformações que tal intervenção provoca vão para além da alteração nos modelos de <em>gatekeeping(</em>6), alcançando expressão no conceito de “antecipação de conteúdos”. O utilizador é hoje mais do que um <em>beacon</em> que anuncia a sua adesão à tecnologia: ele é um indicador claro, para a indústria, dos caminhos que devem seguir no que diz respeito a tendências e a inovação (Cardoso, 2009b).</p>
<div>
<p style="text-align: justify;"><strong>A replicação dos <em>media</em> na rede</strong></p>
<div>
<p style="text-align: justify;">Não é de estranhar, com base nas ideias já expostas, que se assista à gradual migração dos meios de comunicação tradicionais para os novos modelos proporcionados pela tecnologia: “a rede tende a chamar a si todo o tipo de <em>media</em>: escritos (livros, revistas, jornais), auditivos (rádio, música), visuais (cinema, televisão)” (Torres, 2009: 73). Podemos usufruir na rede praticamente tudo que usufruímos nos suportes tradicionais, com uma diferença: agora, somos nós a decidir quando e onde consumimos. A rede replica os <em>media</em>. O Youtube dá-nos fragmentos de programas de TV, o <em>podcast</em> permite-nos ouvir o programa de rádio favorito – a qualquer hora e em qualquer lugar –, os <em>websites</em> dos principais jornais dão-nos o controlo sobre o fio da actualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta nova realidade provoca uma utilização cada vez mais intensa do computador pessoal, sem que isso signifique o consumo de novos conteúdos. Acabamos por usufruir do mesmo, embora em diferentes <em>media</em> (Torres, 2009). A mudança de tecnologia deveria implicar, obrigatoriamente – ou inevitavelmente – uma mudança de ideologia, mas “não é a tecnologia o elemento definidor dos media, é o conteúdo e o uso social” (Torres, 2009: 76). O que nos é dado a assistir tem impregnados e moldados os mesmos valores e representações de uma comunicação que há muito vem cultivando os valores do entretenimento, só que agora na sua disponibilidade fragmentada e <em>on demand</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo certo que as mudanças provocadas pela comunicação no sistema de rede se têm mostrado na actualidade bem mais profundas e disseminadas globalmente, já antes os <em>media</em> tinham alterado o seu critério editorial: “uma das principais mudanças nos conteúdos noticiosos, nos últimos 30 anos, ocorreu na imprensa escrita, uma mudança liderada pelo que é tradicionalmente chamado de ‘imprensa cor-de-rosa’” (Cardoso, 2009b: 47). Mais uma vez, é de entretenimento que se fala. E, nesse particular, a televisão encarregar-se-ia de elevar a categoria ao seu máximo expoente, através da apresentação dos <em>reality shows</em> e dos programas que recorrem às diversas formas de espectáculo e de grotesco.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A combustão mediática do espectáculo e do grotesco</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O paradigma que subjaz à linha editorial contemporânea assenta numa realidade indiscutível: a de que vivemos numa cultura mediática produto da combustão de culturas a grande velocidade e temperatura. Já vimos que para esta realidade concorre a profusão da industrialização da própria cultura, moldando um estilo de vida que é fonte de todos os desejos e que cria uma verdadeira “sociedade do espectáculo” (Debord, 1992). Um espaço mediático que funde o mundo, a vida e a realidade num processo análogo ao da fusão nuclear, no qual dois ou mais núcleos atómicos se juntam, formando um outro núcleo de maior número atómico. Esta metáfora revela-se perfeita para evidenciarmos que o “ruído” provocado pela combustão mediática contemporânea acaba por libertar mais energia do que aquela que consome, ainda que, e mais uma vez paradoxalmente, o resultado final seja produto da soma de partes inócuas e perniciosas – a conflitualidade artificial, a emoção, a presentificação, a falsa mobilidade, a vertigem ou a simplificação – que a agenda mediática se encarrega de colocar em cima da mesa, promovendo um falso consenso:</p>
<blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p style="text-align: justify;">O espectáculo apresenta-se simultaneamente como a própria sociedade, como uma parte da sociedade, e como instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, ele é expressamente o sector que concentra todo o olhar e toda a consciência. Pelo facto de ser um sector separado, ele é o local do olhar abusado e da falsa consciência; e a unificação que promove não é mais do que a linguagem oficial da separação generalizada (Debord, 1992:16 [trad. nossa])   <span class="cite">&mdash; Debord</span></div></div></blockquote>
<div>
<p style="text-align: justify;">Um espectáculo onde o grotesco tem lugar cativo, na busca de um efeito fácil de captação de audiências. Um grotesco que remete a violência para a vulgaridade, pelo excesso da sua contínua exposição, e que encontra a sua expressão máxima no massivo e popular, num processo de circularidade e sensacionalismo que apela à imprecisão e à distorção das informações. Assiste-se à construção de um fio de actualidade que tem horror ao vazio e que vai encadeando notícias de natureza completamente distinta, não obedecendo a qualquer lógica, e utilizando a força da imagem como arauto do óbvio.</p>
<p style="text-align: justify;">Todo este espectáculo mediático veste a capa da “felicidade”, promete tratar todos como iguais, explorando um dos mitos que se encontra lastrado desde a Revolução Industrial: “a força ideológica da noção de felicidade não deriva da inclinação natural de cada indivíduo para a realizar por si mesmo. Advém-lhe, sócio-historicamente, do facto de que o mito da felicidade é aquele que recolhe e encarna, nas sociedades modernas, o <em>mito da Igualdade</em>” (Baudrillard, 2010: 49). A comunicação em rede “beneficia” desta erupção de novas formas de dominação, invocando o primado do individual, e construindo um cenário – desta vez mais democrático, pois acessível a todos(7) – que reflecte o espírito do tempo (<em>Zeitgeist</em>). A utilização das novas formas híbridas de comunicação, que conferem primazia ao poder da imagem, instalam-se no novo paradigma da comunicação:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p style="text-align: justify;">Nenhuma geração sentiu tão grande obsessão pelo visual como a nossa. Rendemo-nos ao visível e é com dificuldade que conseguimos libertar-nos do poder das imagens, quer das fascinantes quer das terríveis. A sociedade [...] está habituada a não acreditar senão no que vê e a acreditar em tudo que vê (Innerarity, 2009: 50)  <span class="cite">&mdash; Innerarity</span></div></div></blockquote></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O poder das indústrias culturais</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Emerge uma nova temática de problematização que importará, ainda que de uma forma breve, trazer à reflexão. Pode a cultura mediática que é produto da comunicação em rede criar uma falsa percepção de poder, ou melhor, uma falsa democratização presente na ilusão de que todos podem ter acesso às mesmas mensagens? (Costa, 2001). Convirá, a este propósito, não desdenhar a análise que é efectuada por Panayota Gounari(8) e que aponta para, no que diz respeito ao nível democrático, um alargamento do fosso entre os cidadãos que, segundo a autora, será da responsabilidade da tecnologia: “os que se encontram nas sombras urbanas da ‘tecnocidade’ não só não possuem os recursos materiais que lhes facilite o acesso [<em>a agenda do acesso</em>], como também não têm o ‘código’ [<em>o código do acesso</em>] para decifrar os complicados discursos que implicam operar e utilizar essas tecnologias” (Gounari, 2009: 27).</p>
<div>
<p style="text-align: justify;">Dada como certa a falsa percepção de poder que resulta da comunicação em rede, poderá o verdadeiro poder, na era da globalização liberal, e como sugere Ignacio Ramonet(9), residir num conjunto de grupos económicos planetários e de “(&#8230;) empresas globais cujo peso nos negócios do mundo é mais importante do que o dos governos dos Estados” (Ramonet, n.d.: 2-3)? Desta questão emerge uma recorrente discussão, já aventada, oriunda dos círculos críticos dos efeitos da globalização e do neoliberalismo, nomeadamente da Escola de Frankfurt, e que se prende com o domínio exercido pelas indústrias culturais na definição das agendas mediáticas. Serão estas, segundo Adorno e os seus pares, as responsáveis pela homogeneização do gosto, contribuindo para um capitalismo cultural que vê no lucro a sua principal meta: “é o milénio de um sistema de castas industrial, composto por intermináveis dinastias” (Adorno, 2003: 91). E Adorno continua: “no sonho dos responsáveis pela mumificação do mundo, a cultura de massas é a escrita hieroglífica dos sacerdotes que dirige as imagens aos subjugados não para serem fruídas, mas sim lidas” (Adorno, 2003: 91).</p>
<p style="text-align: justify;">No que concerne ao meios de comunicação de massa, vivemos na era de uma cultura vista enquanto sector económico de capital importância, contribuindo para o que Lipovestky apelida de “cultura-mundo”, e que acolhe as indústrias culturais e o universo do ciberespaço como seus elementos essenciais (Lipovestky, 2010). Continuamos cativos da ilusão, sonegando o facto de nos termos tornado “(&#8230;) agentes prioritários da [nossa] vivência mediada hegemonicamente pelo mercado” (Correia, 2001: 4). Nesta linha, são por demais conhecidos os efeitos do simulacro e da imaginação, instrumentos sempre presentes na configuração mediática contemporânea. O peso das indústrias culturais verifica-se assim no peso da mensagem como meio: a mensagem é a marca e um negócio demasiado importante para ser deixado aos puros editores. Esta realidade transferiu-se, inevitavelmente, e como vimos pela importância dos media na comunicação reticular, para as novas formas de produção simbólica. Os seus efeitos nefastos foram ampliados e disseminados pelos crescentes espaços de opinião, fazendo com que se tornem os denominadores comuns de uma pobre agenda mediática que importa arredar da construção de um colectivo que se deseja renovado, mas, ao mesmo tempo, portador de valores de cultura universais e verdadeiramente estruturantes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PROPOSTAS PARA UMA RECONVERSÃO COMUNICACIONAL</strong></p>
<p><strong>A falsa oposição entre cultura e técnica</strong></p>
<div>
<p style="text-align: justify;">A forte tendência para separar a tecnologia do mundo dos homens, como se esta fosse um protagonista autónomo – separado da sociedade e da cultura – parece não fazer sentido senão numa proposta que ignore, na realidade técnica, a sua componente humana. Poderá este misoneísmo representar um verdadeiro ódio pela novidade? Ora, nesta questão reside grande parte da resposta para o que hoje chamamos de alienação contemporânea. Na opinião de Gilbert Simondon(10), “(&#8230;) a mais forte causa de alienação do mundo contemporâneo reside nesse desconhecimento da máquina, que não é uma alienação causada pela máquina, mas pelo não-conhecimento da sua natureza e da sua essência” (Simondon, 2008: 169). Interessante será estabelecer um paralelismo entre o pensamento de Simondon e o de Pierre Lévy(11): “Mesmo supondo que existem efectivamente três entidades: técnica, cultura e sociedade, mais do que acentuar o impacto das tecnologias poderíamos do mesmo modo afirmar que as tecnologias são produtos de uma sociedade e de uma cultura” (Lévy, 2000: 23). Esta esclarecida análise, quer de um quer de outro pensador, pretende (re)lembrar que existe uma grande dose de indeterminação naquilo que são as relações humanas mediadas pelas novas ferramentas da comunicação, tal como, por outro lado, existe um tecnicismo que não passa de uma idolatria da máquina, “uma aspiração tecnocrata ao poder incondicional” (Simondon, 2008: 170).</p>
<p style="text-align: justify;">Neste contexto, vêem-se as novas ferramentas de comunicação em rede como uma teia que ameaça o homem, provida de alma e de uma existência separada, capaz de produzir os mais variados e nocivos sentimentos, lançando-o para um abismo de submissão permanente e irreversível que vai destruindo as suas relações sociais e encaminhando-o para o fugaz e para o difuso, cenário que se apresenta castrador da mais elementar liberdade. Esse mesmo homem que, ainda segundo Simondon, é possuidor de uma cultura que não lhe permitiria falar de objectos ou personagens pintadas sobre uma tela como verdadeiras realidades, possuindo uma interioridade, uma vontade boa ou má (Simondon, 2008). Vemos nesta abordagem da relação homem/técnica uma flagrante ambivalência: objectos técnicos como meros utensílios <em>versus</em> objectos animados por intenções hostis que representam “um perigo permanente de agressão, de insurreição” (Simondon, 2008: 170).</p>
<div>
<p style="text-align: justify;">As redes de informação – dependentes de um elevado grau de tecnologia –, onde o fluxo binário circula por infra-estruturas mediadas por máquinas e suportado em diversos conjuntos de linguagem codificada, fundam-se, em certa medida, numa alargada margem de indeterminação. Aí, o homem não pode fugir ao seu papel de organizador permanente, como se de um maestro se tratasse, condicionando o fluxo de dados, quer pela sua natureza quer pela sua utilização: “As relações verdadeiras não se tecem portanto entre ‘a’ tecnologia (que seria da ordem da causa) e ‘a’ cultura (que sofreria os efeitos), mas entre uma multidão de protagonistas humanos que inventam, produzem, utilizam e interpretam técnicas de forma diversa” (Lévy, 2000: 23).</p>
<p style="text-align: justify;">Este grau de indeterminação humano que subjaz à utilização das máquinas, da tecnologia e, por familiaridade, das ferramentas de comunicação em rede, será a chave para a sua correcta – ou não – utilização. Depreende-se, daqui, que o jornalismo, enquanto ferramenta capaz de operar transformações positivas na comunicação da cultura e enquanto veículo de verdadeira emancipação democrática, conducente a uma construção reflexiva do indivíduo social, tem à sua disposição meios tecnológicos que representam novas ideologias. A questão não reside na forma, mas no conteúdo. O mesmo é dizer que as novas ideologias que nascerão da componente tecnológica beneficiam do grau de indeterminação que faz com que o seu bom uso – com tudo o que de subjectivo possa conter – seja possível. Trata-se, portanto, de um uso que depende, em última instância, da vontade de operar transformações através da tecnologia, rejeitando o frequente abuso que se faz do termo <em>alienação</em> e que, na opinião de Umberto Eco, serve para dar abrigo a outro tipo de convicções:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p>(&#8230;) a de que a qualquer coisa que nos age e da qual dependemos é algo que nos é completamente estranho, uma potência inimiga que nada teria a ver connosco, uma vontade maléfica que nos reduziu à sujeição contra a nossa vontade e que mais cedo ou mais tarde poderíamos talvez destruir (Eco, 2009: 250)  <span class="cite">&mdash; Eco</span></div></div></blockquote></p>
<p><strong>A urgência de uma nova agenda mediática</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Estaremos, possivelmente, numa altura propícia para reflectirmos a propósito dos desafios que se colocam ao jornalismo do futuro, ou, se preferirmos, do presente. É na nova realidade trazida pelo paradigma da comunicação em rede – ainda que possa trazer mais inconvenientes do que vantagens ­‐ que o teremos de fazer. Contudo, como acabamos de ver, a tecnologia, por si só, não pode nem deve determinar o caminho a traçar:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p style="text-align: justify;">Em geral, as utopias derivam de um determinismo tecnológico de carácter religioso: os seus autores, sem cuidarem de estudar o passado histórico e o presente sociológico, aceitam um devir de acordo com as tecnologias numa perspectiva auto-suficiente, isto é, a tecnologia por si só estabelece o futuro (Torres, 2009: 71)  <span class="cite">&mdash; Torres</span></div></div></blockquote></p>
<div>
<p style="text-align: justify;">Refuta-se a ideia de McLuhan(12): o <em>medium</em> não deverá ser a mensagem. A mensagem deverá estar sempre, e incondicionalmente, ao abrigo de manipulações reificadoras e lesivas da qualidade da comunicação, um conceito de difícil definição, porquanto existirão tantas definições de qualidade quantas as subjectividades. A este respeito, teceremos agora algumas considerações.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma percepção generalizada que tende a estabelecer um paralelismo entre a crise generalizada do jornalismo e o espectáculo de fraca qualidade oferecido pelo “circo mediático”. A qualidade é aqui entendida como um serviço público capaz de se elevar nos temas abordados e na linguagem jornalística (Pinto &amp; Marinho, 2003). Com excepção de uns quantos orgãos de informação de referência, que continuam a pautar – tanto quanto possível – a sua linha editorial por critérios apertados de credibilidade, a maioria da agenda mediática é marcada pelo exagero do paradoxo, da instantaneidade e espectacularidade. Perante este cenário pouco consentâneo com um jornalismo que pretende desenvolver a capacidade do cidadão e promover a discussão de ideias verdadeiramente transformadoras, urge operar uma reformulação que seja capaz de repor a credibilidade do jornalista.</p>
<div>
<p style="text-align: justify;">As intuições de McLuhan – que já nos inícios dos anos 60 previra um mundo em direcção a uma aldeia planetária e a vitória dos meios electrónicos sobre o impresso – começa, paulatinamente, a desenhar-se. Contudo, ainda que a comunicação em rede tenha ganho uma dimensão considerável – a ponto de chamar a si uma significativa parte dos esforços das administrações da imprensa escrita –, continuamos a olhar para o jornalismo impresso como um suporte sólido à comunicação (Cornu, 1999). A maior parte das informações que circulam na rede são objecto de confirmação, por parte dos seus leitores, nos principais jornais de referência. Este facto reafirma a nossa convicção de que é através da acção dos seus jornalistas que será possível inverter a actual tendência de circularidade e superficialidade dos meios de comunicação.</p>
<p style="text-align: justify;">A mediação, e a forma como é exercida, ganha contornos que a desenham como fundamental para o futuro do desenvolvimento e da democracia. É a sua qualidade que deve merecer toda a nossa atenção. Ela deve continuar a ser o centro das preocupações dos jornalistas que não podem continuar a olhar para os novos meios de comunicação interpessoal como os únicos responsáveis pelos caminhos escolhidos:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p style="text-align: justify;">A crise de do jornalismo terá mais a ver com o escrutínio da conformidade das práticas, com os valores e normas de conduta (como a isenção, a objectividade, o rigor, a procura da verdade, a independência e o pluralismo) e com os efeitos negativos sobre as audiências cultas de imprensa de fusão de géneros (como a notícia e a opinião, ou a informação e o entretenimento), do que propriamente com as potencialidades comunicacionais abertas pela Internet, o telemóvel e quejandos” (Silva, 2009: 67-68)  <span class="cite">&mdash; Silva</span></div></div></blockquote></p>
<p style="text-align: justify;">É urgente a redefinição de uma agenda mediática que se pretende detentora de qualidade. Valerá a pena propor uma aferição dessa qualidade com base em quatro eixos essenciais: diversidade (diversificação dos <em>media</em>, variedade de géneros, conteúdos e formatos, pluralidade de representações e pontos de vista), liberdade (pre-requisito do jornalismo), <em>accountability</em> (“prestação de contas” dos <em>media</em> relativamente à sociedade e escrutínio público por parte dos cidadãos, grupos e instituições) e Contexto Organizacional e Profissional (quadro empresarial ou grupo em que o jornalismo é produzido que pode condicionar os “modos de fazer” dos profissionais) (Pinto &amp; Marinho, 2003).</p>
<p style="text-align: justify;">Para que a qualidade seja transversal ao jornalismo, é necessário erradicar a ideia de que a cultura é uma especialidade do acto jornalístico: o chamado “jornalismo cultural”. Independentemente do tipo de notícia, crónica ou reportagem, um orgão de comunicação social – seja escrito, falado ou televisivo – deve ter sempre presente a componente da cultura, entendida como primordial para a transmissão dos valores que estruturam a sociedade e que fazem do espaço público um espaço de recordação comum. Fazer serviço público deverá ser “(&#8230;) fazer o que os outros não podem ou não querem fazer: programação de interesse cultural, histórico, informativo, debate [...]” (Torres, 2009: 82). Para a compreensão do que somos, e de como o mundo funciona hoje, é essencial a assunção de uma identidade cultural que não seja resultado da acção, mas da história (Innerarity, 2010).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O argumento de autoridade</strong></p>
<div>
<p style="text-align: justify;">Inevitavelmente, ao jornalismo – enquanto disciplina possuidora de um legítimo argumento de autoridade – compete a importante tarefa de garantir a fiabilidade e a credibilidade da informação. Num cenário em que facilmente se constata o aumento a passos largos, e a cada dia, do número de blogues, sites pessoais e participações de cidadãos em comunidade de notícias <em>online</em>, as probabilidades da informação se confundir com o mero “ruído” são notórias e evidentes. Assim, afigura-se-nos claro que o jornalismo-cidadão – ou qualquer outra forma de comunicação que pretenda chamar a si o primado da isenção e da verdade pela simples negação da figura do jornalista – nunca será capaz de proporcionar uma comunicação que consiga libertar-se da latente arbitrariedade característica da comunicação em rede: “a credibilidade revela-se hoje como um princípio essencial à selecção, pelo receptor, de uma informação mediática cada vez mais excessiva, tanto do ponto de vista quantitativo como qualitativo” (Serra, 2006: 1).</p>
<p style="text-align: justify;">A credibilidade é tão ou mais necessária numa comunicação em que impera o princípio da transmissão. Entre a fonte e o receptor, o jornalista, utilizando os princípios deontológicos e técnicos, funciona como um filtro – agindo na qualidade de legítimo <em>gatekeeper</em> – e, dessa forma, valida a fiabilidade das informações publicadas. Ao contrário, na rede, o jornalista-cidadão publica primeiro e filtra <em>a posteriori</em>, como se a credibilidade fosse um seu atributo quase natural e a sua vontade de publicar toda a verdade se sobrepusesse a todas e quaisquer suspeitas:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p style="text-align: justify;">Não creio ser necessário dizer que, do ponto de vista das mais elementares regras deontológicas do jornalismo, esse procedimento seria no mínimo um disparate, pois significaria abrir o campo a todo o tipo de boatos e de informações “plantadas”, com as nefastas consequências que todos conhecem” (Serra, 2006: 69)  <span class="cite">&mdash; Serra</span></div></div></blockquote></p>
<div>
<p style="text-align: justify;">Na comunicação em rede, e quando esta é realizada por cidadãos não qualificados como os jornalistas, esbate-se o dispositivo de credibilização: “o conceito do ‘cidadão- jornalista’ é uma variante do ‘cidadão-canalizador’” (Torres, 2009: 78).</p>
<p style="text-align: justify;">Os meios de comunicação tradicionais – ou os “velhos media” (Torres, 2009) – funcionam como filtro e centro de selecção da informação. O seu reconhecimento pela sociedade deriva da existência de um conjunto de regras e princípios que são a garantia de um trabalho efectuado de acordo com um código profissional. Os <em>media</em> possuem uma legitimidade consentida socialmente e que é sustentada, precisamente, pelo seu argumento de autoridade:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p style="text-align: justify;">Quando reflectimos sobre a comunicação dominante ou sobre a comunicação alternativa, o que as duas têm em comum é o fato de que são comunicação e de que não é possível comunicar-se bem de qualquer maneira: é preciso uma série de técnicas (Ramonet cit. por Moretzsohn, 2006: 76)  <span class="cite">&mdash; Ramonet</span></div></div></blockquote></p>
<div>
<p style="text-align: justify;">Para que informar – pôr em forma – não seja uma traição do conteúdo, é necessário que se cumpram vários princípios estabelecidos no código deontológico do jornalista. Desde logo, importa salvaguardar uma importante diferença entre notícia e verdade. Segundo Lippmann, a notícia, logo a informação, “(&#8230;) não reflecte mais do que um aspecto, um fragmento do conhecimento de um objecto” (Lippmann cit. por Cornu, 1999: 75). A verdade supõe a procura de factos ocultos que permitam destacar uma “imagem da realidade” (Cornu, 1999).</p>
<p style="text-align: justify;">Feita esta distinção – que pode muito bem ilustrar a diferença entre o que nos oferece o jornalista e o jornalista-cidadão –, outros princípios há que devem ser observados e garantidos no desempenho da profissão. O tratamento das fontes, que se mostra especialmente importante no tema que tratamos, constitui o cerne do trabalho do jornalista, pois delas depende a informação. Do rigor no seu tratamento dependerá a verdade da informação. Resulta, da Declaração de Munique, que se devam publicar apenas as informações cuja origem seja conhecida ou, caso contrário, se publique sob reserva (Cornu, 1999). A transparência deste processo é primordial para que a credibilidade do jornalista seja tida como certa, num processo de acumulação de capital que se constrói ao longo do tempo, mas que ficará comprometido com apenas uma informação falsa.</p>
<div>
<p style="text-align: justify;">Continuando no apartado dos princípios que devem reger o comportamento do jornalista, enunciaremos mais alguns que nos merecem atenção: o dever de rectificação, o direito de resposta, o segredo redactorial, o respeito pela dignidade humana, a presunção de inocência, o respeito pelas sensibilidades do público e das minorias e o plágio. Todos este princípios, e muitos outros que aqui não referenciámos, conferem à informação proveniente dos media um estatuto do qual muito dificilmente – excepto em casos de comunidades especializadas – o cidadão poderá usufruir:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p style="text-align: justify;">[Os] leitores de uma coluna especializada podem saber mais que o colunista, devido justamente à especialização do tema; fontes também são leitores, e sabem mais que o jornalista – exactamente por isso são fontes; mas o público em geral necessariamente sabe menos, e se quiser informar-se precisará recorrer a algum meio confortável (Moretzsohn, 2006: 69)  <span class="cite">&mdash; Moretzsohn</span></div></div></blockquote></p>
<p style="text-align: justify;">Desenha-se assim a responsabilidade fundamental do jornalista: dizer a verdade na informação perante o conjunto dos cidadãos. O futuro do jornalismo terá que basear-se, incondicionalmente, nesta premissa fundacional. Ainda que se observem comportamentos indignos em alguns dos seus representantes, é importante que o trabalho jornalístico não seja posto em causa por tais comportamentos, devendo a profissão, e como refere Max Weber, merecer sempre uma certa estima que importa preservar (Cornu, 1999).</p>
<p><strong>CONCLUSÃO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo deste trabalho quisemos analisar o novo paradigma da comunicação em rede à luz de uma visão prudente e balizada pelo que consideramos serem princípios de coerência e credibilidade. Sendo certo que as novas tecnologias aportam importantes contributos para a renovação dos suportes de difusão de informação, comunicação e retroacção, não o será menos o facto de assistirmos, de uma forma crescente e aparentemente desgovernada, à proliferação de uma visão pós-moderna e utópica que almeja a que todos os <em>media</em>, no futuro, sejam o resultado da acção dos seus utilizadores. Este <em>empowerment</em> que é conferido ao indivíduo, como elemento central no processo de comunicação, promete uma nova era de poder e liberdade. Aí reside, precisamente, um dos equívocos do novo paradigma e que serve de sustentação a uma das conclusões deste trabalho: a influência dos <em>media</em> tradicionais na construção social é mais presente do que, à primeira vista, seria suposto admitir-se:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de que usamos os “novos media” para criar ou para transmitir as nossas criações tem algo de patético, porque sempre fizemos isso, desde que há media no mundo. As utopias e o determinismo tecnológico ignoram geralmente a história e julgam que tudo é novo e absolutamente novo, quando a maioria das “novidades” é uma variação sobre os mesmos temas (Torres, 2009: 79)  <span class="cite">&mdash; Torres</span></div></div></blockquote></p>
<div style="text-align: justify;">
<p>Parece-nos essencial não menosprezar a importância da componente tecnológica quando se trata de pensar a comunicação: a tecnologia, com o seu grau de indeterminação, é sem dúvida um marco revolucionário da história da comunicação. Esta constatação não significa que qualquer cidadão, pelo facto de fornecer informação, ainda que relevante, possa ser considerado jornalista. Daqui resulta uma outra conclusão: a importância do jornalista, enquanto legítimo “guardião dos portões”, é fundamental para a credibilidade da informação. O conjunto de regras deontológicas e as técnicas necessárias ao bom desempenho da profissão são condição <em>sine qua non</em> para uma informação que deve ser pautada pela procura dos valores de verdade, liberdade e pluralismo.</p>
<p>Tivemos o cuidado, ao longo do presente trabalho, de deixar clara a ideia da necessidade de se operarem transformações no seio do jornalismo. Desde logo, a urgência que representa a reconversão de uma agenda mediática que se revela desadequada e que enferma de uma lógica economicista. O sistema mediático deve ser capaz de apostar na diversidade para que sejam representados todos os interesses da sociedade. Nesse sentido, é importante a existência de um enquadramento institucional que garanta independência em relação aos monopólios privados e ao Estado. Deve igualmente ser capaz de tornar interessante o que é importante, revestindo todas as áreas da sua intervenção com a capa da cultura. No que diz respeito à comunicação no sistema de rede, os <em>media</em> devem mostrar ser capazes de exportar essa filosofia para o seu interior, alargando o âmbito de serviço público. Dessa forma, incrementar-se-á o sentido crítico e o esclarecimento dos públicos, contribuindo para uma sociedade civil mais democrática. Outra das transformações urgentes, pelo que significa na sedução junto das novas gerações que nasceram no seio da tecnologia e da comunicação em rede, e que cada vez mais se desligam dos meios tradicionais, passa pela descoberta de novos caminhos estéticos e interactivos. Aproveitar as potencialidades dos novos suportes para a criação de complementaridades entre métodos verticais e interactivos.</p>
<div>
<p>Por tudo dito, fica evidente a importância da mediação como uma condição essencial para um futuro democrático: é um elemento essencial para o desenvolvimento económico dos países e para o exercício da democracia (Castells, 2007) e, ao mesmo tempo, revela-se fundamental como elemento de identificação e de pertença para a maioria das pessoas (Castells et al., 2003). É urgente que ela seja efectuada pelos jornalistas. É urgente que os jornalistas se consciencializem da sua importância. É nas mãos deles que está a chave da mudança:</p>
<blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"></p>
<p>(&#8230;) o jornalista, lentamente, entrou de novo num processo de valorização profissional, enquanto alguém que, pela sua ética, pode ser considerado de confiança, porque o que ele escrever, disser ou filmar terá um valor diferente de muito do que é actualmente publicado [...] e se não pudermos contar com essa ética profissional, os nossos problemas são muito maiores (Cardoso, 2009a: 48)  <span class="cite">&mdash; Cardoso</span></div></div></blockquote>
<p>Importará lembrar que, “(&#8230;) quando damos pelas revoluções operadas subterraneamente, elas já estão feitas (Luhmann cit. por Torres, 2009: 82).</p>
<p><strong>Notas de Rodapé</strong></p>
<p>(1) Manuel Castells é um sociólogo espanhol, professor de Comunicação, e importante teórico da nova era da comunicação. A sua obra mais conhecida é a trilogia “Sociedade em Rede – A Era da informação: Economia, sociedade e cultura”.<br />
(2) Charles Horton Cooley (1864-1929) foi um sociólogo norte-americano que dedicou grande parte dos seus estudos à determinação social do carácter. A sua teoria fundamental diz que a mente é social e a sociedade, mental.<br />
(3) Segundo Nicolas Negromonte, e a partir das suas crónicas na revista <em>Wired</em>, as quatro virtudes cardinais da sociedade da informação – “descentralizar”, “globalizar”, “harmonizar” e “dar plenos poderes para fazer” –, a que chama <em>empowerment</em>, estão na iminência de vencer o Estado-Nação, o arcaico Leviatão (Cf. Mattelart, 2002).<br />
(4) John B. Thompson é sociólogo e professor da Universidade de Cambridge. Dedica-se ao estudo da influências dos media na formação das sociedades modernas.<br />
(5) A ordem familiar, as ideologias revolucionárias e nacionalistas, a compartimentação disciplinar e a moral autoritária foram dispositivos colectivos que contrariaram a afirmação do princípio da individualidade (Lipovetsky, 2010).<br />
(6) A forma como é filtrada a informação com o objectivo de publicação.<br />
(7) Importará ter presente o perigo de gentrificação que está subjacente às noções de <em>agenda do acesso</em> (as condições económicas necessárias para aceder à tecnologia) e <em>código do acesso</em> (os mecanismos de descodificação simbólica) que Panayota Gounari evidencia na sua obra <em>A Democracia na Nova Era Tecnológica</em> e que em seguida abordaremos (Cf. Gounari, 2009).<br />
(8) Panayota Gounari é professora de Linguística Aplicada na Universidade de Massachusetts, Boston. As suas áreas de interesse incluem a análise da língua na sua relação com a mudança social e nas implicações com a democracia.<br />
(9) Ignacio Ramonet é jornalista e sociólogo. Nascido na Galiza, Ramonet é doutorado em Semiologia e professor de Teoria da Comunicação.<br />
(10) Gilbert Simondon (1924-1989) foi filósofo e professor da Universidade de Paris-Sorbonne e publicou, entre outros: <em>Du monde d’existence des objets techniques</em> (Paris: Aubier, 1958); <em>L’individu et sa genèse physico-biologique</em> (Paris: PUF, 1964); e <em>L’individuation psychique et collective</em> (Paris: Aubier, 1989).<br />
(11) Pierre Lévy (Tunísia, 1956) é um filósofo da informação que se ocupa do estudo das interacções entre Internet e sociedade.<br />
(12) Marshall McLuhan foi um filósofo e professor canadiano que se revelou um importante teórico da comunicação. Os seus estudos tiveram como um dos principais objectivos o estudo do impacto dos meios de comunicação nas sensações humanas.</p>
<p><strong>BIBLIOGRAFIA</strong></p>
<div>
<div>
<div>
<p>Araújo, V., Neto, P., Cheta, R. &amp; Cardoso G. (2009). Os jornalistas na Sociedade em Rede: novos modelos de gatekeeping? In G. Cardoso, R. Espanha &amp; V. Araújo (Org.), Da Comunicação de Massa à Comunicação em Rede, (pp. 69-­‐99). Porto: Porto Editora.<br />
Adorno, T. (2003). Sobre a Indústria da Cultura. Coimbra: Angelus Novus.<br />
Baudrillard, J. (2010). A Sociedade de Consumo. Lisboa: Edições 70.<br />
Cardoso, G. (2009a). Da comunicação de massa para a comunicação em rede. In G. Cardoso, F. R. Cádima &amp; L. L. Cardoso (coord.), Media, Redes e Comunicação, (pp. 15-­‐54). Lisboa: Quimera.<br />
Cardoso, G. (2009b). Da comunicação de massa à comunicação em rede: modelos comunicacionais e a sociedade de informação. In G. Cardoso, R. Espanha &amp; V. Araújo (Org.), Da Comunicação de Massa à Comunicação em Rede, (pp. 15-­‐66). Porto: Porto Editora.<br />
Castells, M. et al. (2003). La Societet Xarxa a Catalunya. Barcelona: Editorial UOC.<br />
Castells, M. (2006). Communication, Power and Counter-­‐Power in the Network Society. International Journal of Communication, 1, 238-­‐266. Acedido em 6 de Julho de 2010, em: http://ijoc.org/ojs/index.php/ijoc/article/view/4635<br />
Cooley, C. H. (1992). Human Nature and Social Order. New York: Transaction Publishers.<br />
Cornu, D. (1999). Jornalisno e Verdade. Para uma Ética da Informação. Lisboa: Instituto Piaget.<br />
Correia, J. C. (2001). A emergência do individalismo na cultura mediática contemporânea. Acedido em 28 de Junho de 2010, em: http://www.bocc.uff.br/pag/correia-­‐joao-­‐ ferreira-­‐emergencia-­‐individualismo.pdf<br />
Costa, B. (2001). Barbárie estética e produção jornalística: A atualidade do conceito de indústria cultural. Eduação &amp; Sociedade [online], 22, 76, 106-­‐120. Acedido em 28 de Junho de 2010, em: http://www.scielo.br/pdf/es/v22n76/a07v2276.pdf<br />
Debord, G. (1992). La Societé du Spectacle. Paris: Gallimard.<br />
Eco, U. (2007). Turning Back the Clock: Hot Wars and Media Populism. London: Harcourt.<br />
Eco, U. (2009). Obra Aberta (2o ed.). Lisboa: Difel.<br />
Ferreira, G. (2009). Comunicação, Media e Identidade. Lisboa: Edições Colibri.<br />
Fidalgo, A. (2009). Especificidade epistemológica do jornalismo: desfazendo uma ilusão do jornalismo-­‐cidadão. In G. Cardoso, F. R. Cádima &amp; L. L. Cardoso (coord.), Media, Redes e Comunicação, (pp. 219-­‐229). Lisboa: Quimera.<br />
Gilmor, D. (2005). Nós, Os Media. Lisboa: Editorial Presença.<br />
Gounari, P. (2009). A Democracia na Nova Era Tecnológica. Mangualde: Edições Pedago.<br />
Innerarity, D. (2009). A Sociedade Invisível. Lisboa: Teorema.<br />
Innerarity, D. (2010). O Novo Espaço Público. Lisboa: Teorema.<br />
Lévy, P. (2000). Cibercultura. Lisboa: Instituto Piaget.<br />
Lipovetsky, G, (1989), A Era do Vazio. Lisboa: Relógio D’Água.<br />
Lipovetsky, G. (2009). A Felicidade Paradoxal. Ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo. Lisboa: Edições 70.<br />
Lipovetsky, G. (2010). A Cultura-­Mundo. Lisboa: Edições 70.<br />
Mattelart, A. (2002). História da Sociedade da Informação. Lisboa: Bizâncio.<br />
Moretzsohn, S. (2006). O mito libertário do “jornalismo-­‐cidadão” . Comunicação e Sociedade, 9-­‐10, 63-­‐81. Acedido em 6 de Julho de 1010, em: http://revcom2.portcom.intercom.org.br/index.php/cs_um/article/view/4749/4463<br />
Pinto, M. &amp; Marinho, S. (2003). A qualidade em jornalismo: problematização e operacionalização do conceito. Acedido em 29 de Junho de 2010, em: http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/997/1/manuelpinto_sandramari nho_CongressoLuso_Br_2003.pdf<br />
Ramonet, I. (n.d.). Control de la Información. Información y Comunicación en la Era de la Globalización Liberal. El Quinto Poder. Acedido em 28 de Junho de 2010, em: http://www.ucentral.edu.co/acn/obser/medios/pdf/02.pdf<br />
Rodrigues, A. (1994). Comunicação e Cultura. Lisboa: Editorial Presença.<br />
Sánchez, Y. (2010). Cuba Livre. A arte de sobreviver a Fidel Castro. Lisboa: Casa das Letras.<br />
Sartori, G. (2000). Homo Videns. Televisão e pós-­pensamento. Lisboa: Terramar.<br />
Serra, P. (2006). O princípio da credibilidade na selecção da informação mediática. Acedido em 06 de Julho de 2010, em: http://www.bocc.uff.br/pag/serra-­‐paulo-­‐ credibilidade-­‐seleccao-­‐informacao.pdf<br />
Silva, A. S. (2009). Os media em mudança e as novas formas de problemas antigos. In G. Cardoso, F. R. Cádima &amp; L. L. Cardoso (coord.), Media, Redes e Comunicação, (pp. 15-­‐54). Lisboa: Quimera.<br />
Simmel, G. (1984). On Individuality and Social Forms. Chicago: Chicago University Press.<br />
Simondon, G. (2008). Cultura e Técnica. Revista NADA, 11, 168-­‐175.<br />
Torres, E. C. (2009). Utopia, determinismo e usos sociais daquilo a que chamamos media. In G. Cardoso, F. R. Cádima &amp; L. L. Cardoso (coord.), Media, Redes e Comunicação, (pp. 71-­‐ 83). Lisboa: Quimera.<br />
Watzlawick, P. (1991). A realidade é real?. Lisboa: Relógia D’Água.<br />
Wolf, M. (2009). Teorias da Comunicação (10a ed.). Lisboa: Editorial Presença.</p>
</div>
</div>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
<p style="text-align: justify;">
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
</div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://cibermundos.net/cibercultura/a-comunicacao-no-sistema-de-rede-um-novo-paradigma/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Aelin Quan expõe na Galeria LX</title>
		<link>http://cibermundos.net/arte-em-sl/aelin-quan-expoe-na-galeria-lx/</link>
		<comments>http://cibermundos.net/arte-em-sl/aelin-quan-expoe-na-galeria-lx/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 17 Sep 2011 11:06:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte em SL]]></category>
		<category><![CDATA[Second Life]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://paulopinto.net/cm/?p=222</guid>
		<description><![CDATA[Aelin Quan é uma ciberartista. Todo o seu trabalho tem como base fotografias captadas nos mundos virtuais, sofrendo pós-processamento em programas de edição de imagem. Estamos perante um trabalho de cariz conceptual, mas sem dúvida com muita qualidade. A Galeria LX (Portucalis, 84,60,22) inaugura hoje, 17 de Setembro às 2PM SLT (10pm hora local), uma exposição ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://aelinquan.daportfolio.com/" target="_blank">Aelin Quan</a> é uma ciberartista. Todo o seu trabalho tem como base fotografias captadas nos mundos virtuais, sofrendo pós-processamento em programas de edição de imagem. Estamos perante um trabalho de cariz conceptual, mas sem dúvida com muita qualidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/galeriaLX.png"><img class="alignnone size-full wp-image-235" title="galeriaLX" src="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/galeriaLX.png" alt="" width="616" height="256" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A Galeria LX (Portucalis, 84,60,22) inaugura hoje, 17 de Setembro às 2PM SLT (10pm hora local), uma exposição da artista no seu espaço. Algum do trabalho de Aelin Quan pode ser conhecido <a href="http://aelinquan.daportfolio.com/gallery/340969" target="_blank">AQUI</a>.</p>
<p><a href="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/aelinquan.png"><img class="alignnone size-full wp-image-224" title="aelinquan" src="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/aelinquan.png" alt="" width="651" height="242" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://cibermundos.net/arte-em-sl/aelin-quan-expoe-na-galeria-lx/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O papel do Facebook na Primavera Árabe</title>
		<link>http://cibermundos.net/cibercultura/o-papel-do-facebook-na-primavera-arabe/</link>
		<comments>http://cibermundos.net/cibercultura/o-papel-do-facebook-na-primavera-arabe/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 17 Sep 2011 09:45:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://paulopinto.net/cm/?p=207</guid>
		<description><![CDATA[Este é um tema que tenho estudado com algum interesse recentemente. Parece claro que o FB tem o poder de modificar o comportamento dos cidadãos, mobilizando-os para acções de rua de reivindicação dos seus interesses e aspirações. No entanto, a questão está longe de se encerrar nesta simplificação, podendo o investigador ou observador deixar-se levar ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este é um tema que tenho estudado com algum interesse recentemente. Parece claro que o FB tem o poder de modificar o comportamento dos cidadãos, mobilizando-os para acções de rua de reivindicação dos seus interesses e aspirações. No entanto, a questão está longe de se encerrar nesta simplificação, podendo o investigador ou observador deixar-se levar pelo grande impacto mediático que representou a &#8220;Primavera Árabe&#8221; ou, há mais tempo, a tentativa falhada de revolução no Irão.</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente, os mais atentos à blogosfera lembrar-se-ão de notícias que davam conta da existência de um &#8220;corpo&#8221; especial da secreta norte-americana cuja missão era a criação de <em>personas</em> que povoariam os fóruns, os blogs e as demais &#8220;avenidas&#8221; da informação. O objectivo não é escondido: fazer pender determinada discussão para um dos lados da balança. Este e outros factos, como por exemplo o controlo da utilização da Internet por parte do governo chinês, provocam um manto de opacidade sobre a questão que pretendemos ver esclarecida. Assim, parece emergir uma questão: poderá esta realidade advir de uma vontade popular que tenta resistir ao poder das instituições carentes de escrutínio ou estaremos perante uma manipulação que se serve dos cidadãos para objectivos encapsulados?</p>
<p style="text-align: justify;">A BBC produziu um trabalho jornalístico sobre o impacto do Facebook nas revoluções operadas no mundo árabe. Este tipo de abordagens jornalísticas ajudar-nos-ão a recolher material de estudo e análise para o aprofundamento da problemática.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Parte 1</strong></p>
<object style="width: 600px; height: 350px;" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="100" height="100" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0">
		<param name="data" value="http://www.youtube.com/v/lnPR90dJ3Gk" />
		<param name="src" value="http://www.youtube.com/v/lnPR90dJ3Gk" />
		<embed style="width: 600px; height: 350px;" type="application/x-shockwave-flash" width="100" height="100" src="http://www.youtube.com/v/lnPR90dJ3Gk" data="http://www.youtube.com/v/lnPR90dJ3Gk"></embed></object>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Parte 2</strong></p>
<object style="width: 600px; height: 350px;" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="100" height="100" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0">
		<param name="data" value="http://www.youtube.com/v/7WNd-Zm0K9A" />
		<param name="src" value="http://www.youtube.com/v/7WNd-Zm0K9A" />
		<embed style="width: 600px; height: 350px;" type="application/x-shockwave-flash" width="100" height="100" src="http://www.youtube.com/v/7WNd-Zm0K9A" data="http://www.youtube.com/v/7WNd-Zm0K9A"></embed></object>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Parte 3</strong></p>
<object style="width: 600px; height: 350px;" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="100" height="100" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0">
		<param name="data" value="http://www.youtube.com/v/5pwovLCwBTY" />
		<param name="src" value="http://www.youtube.com/v/5pwovLCwBTY" />
		<embed style="width: 600px; height: 350px;" type="application/x-shockwave-flash" width="100" height="100" src="http://www.youtube.com/v/5pwovLCwBTY" data="http://www.youtube.com/v/5pwovLCwBTY"></embed></object>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Parte 4</strong></p>
<object style="width: 600px; height: 350px;" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="100" height="100" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0">
		<param name="data" value="http://www.youtube.com/v/gJ1HGDWvvHI" />
		<param name="src" value="http://www.youtube.com/v/gJ1HGDWvvHI" />
		<embed style="width: 600px; height: 350px;" type="application/x-shockwave-flash" width="100" height="100" src="http://www.youtube.com/v/gJ1HGDWvvHI" data="http://www.youtube.com/v/gJ1HGDWvvHI"></embed></object>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://cibermundos.net/cibercultura/o-papel-do-facebook-na-primavera-arabe/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Da Cibercultura às Indústrias Culturais</title>
		<link>http://cibermundos.net/cibercultura/da-cibercultura-as-industrias-culturais/</link>
		<comments>http://cibermundos.net/cibercultura/da-cibercultura-as-industrias-culturais/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 16 Sep 2011 13:15:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[Indústrias Culturais]]></category>
		<category><![CDATA[indústrias culturais]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://paulopinto.net/cm/?p=138</guid>
		<description><![CDATA[Na pletora digital contemporânea configurada pela sociedade em rede, o virtual tem fome de real. As manifestações ciberculturais extravasam cada vez mais as suas fronteiras binárias para, paulatinamente, se afirmarem como alavancadoras de uma visibilidade física potenciadora de intervenção social, criatividade e reivindicação. O cidadão, agora numa versão emancipada e pós-­moderna, reticulado pela reconfiguração espácio-­temporal, interage com os seus pares ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na pletora digital contemporânea configurada pela sociedade em rede, o virtual tem fome de real. As manifestações ciberculturais extravasam cada vez mais as suas fronteiras binárias para, paulatinamente, se afirmarem como alavancadoras de uma visibilidade física potenciadora de intervenção social, criatividade e reivindicação. O cidadão, agora numa versão emancipada e pós-­moderna, reticulado pela reconfiguração espácio-­temporal, interage com os seus pares e potencia redes de saber que, cada vez mais, se afirmam no espaço público.</p>
<p style="text-align: justify;">Recentemente, o mundo tem assistido, a partir dos mais variados meios de comunicação, a verdadeiras revoluções populares. Desde a falhada tentativa de revolução no Irão – que mitificou as redes sociais como autênticas ferramentas de difusão da <em>vox populi</em> – às recentes investidas populares na Tunísia e Egipto, com os resultados já conhecidos, a interacção entre cidadãos de diversas sociedades tem provocado um verdadeiro terramoto nas formas tradicionais de relacionamento entre os indivíduos, legitimados agora pela posse de mecanismos de controlo antes impensáveis. Poder­-se-á questionar o grau de <em>empowerment</em> de tal nova realidade social. Contudo, todos reconhecerão que, apesar das vozes mais cépticas em relação a uma verdadeira opinião pública libre e independente, nada será igual a partir do momento em que a sociedade do conhecimento se estabelece na maior parte do mundo ocidental ou ocidentalizado.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não só a dimensão política se reorganiza. Richard Florida, na sua obra <em>The Rise of the Creative Class</em>, dá-­nos conta da emergência de três dimensões criativas, à qual não será alheio o nascimento da Sociedade em Rede: o <em>ethos</em> criativo, a economia criativa e a classe criativa. Esta nova classe criativa afirmar-­se-á através da tecnologia, da cultura e da economia, não prescindindo do verdadeiramente global que, mais do que um fenómeno, se configura como uma forma de agir e de pensar. Dá-se a emergência de um novo pólo que reúne, num único conceito, um alto nível educacional e grande capital humano. As indústrias criativas exploram a propriedade intelectual, criando dinâmicas económicas que têm por base este emergente <em>creative thinking</em> que é indissociável do conceito de partilha. Poderão as indústrias criativas beneficiar de uma cooperação verdadeiramente cosmopolita de forma a potenciarem o desenvolvimento local? A esta e outras questões procuraremos responder ao longo deste trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/trcimage001.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-175" title="trcimage001" src="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/trcimage001-300x196.jpg" alt="" width="300" height="196" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O NASCIMENTO DO CIBERESPAÇO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os últimos anos têm assistido ao emergir de novos espaços virtuais mediáticos cuja localização espácio­-temporal não se encontra claramente definida. Especular sobre estes novos espaços de consumo, ócio e comunicação que a revolução digital na sociedade nos proporciona, permite dizer praticamente tudo e o seu contrário: “(&#8230;) progresso imenso ou regressão funesta, assunção do indivíduo democrático ou alienação da consciência do cidadão, instrumento poderoso de aculturação ou máquina gigantesca de lobotomizar” (Nora, 1995:263). Não devemos subestimar os efeitos de tão grandes inovações. Contudo, não serão os factores tecnológicos mais condicionantes do que determinantes nas civilizações? Assumir a técnica como condicionadora equivale a dizer que certas opções culturais ou sociais não poderiam ser encaradas sem a sua presença, não significando que sejamos reféns e determinados pelas mesmas (Lévy, 2000). Se é certo que a revolução digital deva ser encarada como condicionante, não menos verdade é o facto de esta substituir, cada vez mais, as funções tradicionais de aculturação, participação cívica e interacções sociais. Este novo fenómeno tem vindo a ser determinante na evolução das sociedades, a ponto de se considerar não apenas um mero processo instrumental, mas antes uma revolução capaz de criar sinergias e transformar a sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Assistimos, assim, ao nascimento de um novo paradigma sociocultural que gera novas identidades culturais com base no grande desenvolvimento tecnológico e na aceleração da realidade. Com as novas tecnologias da comunicação e da informação, dá-­se uma mudança na concepção territorial. A reconfiguração do tempo e do espaço cria “(&#8230;) relações humanas menos estáveis e identificadoras e mais mutáveis e reticulares; menos hierárquicas e mais igualitárias e enriquecedoras” (Bauman cit.por Tortosa, 2008:260). A humanidade depara-­se com um destino comum que parece emergir como nunca: a conectividade electrónica. O computador surge como a máquina operadora desta radical mudança:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"> O computador é o instrumento central das sociedades através do qual o indivíduo sente, se relaciona, pensa, constrói relações (íntimas ou sociais), gera a sua identidade. As intensas relações informáticas estão a mudar o modo de pensar e inclusive de sentir [...] A Internet é o laboratório principal por onde circula essa identidade mutante. (Tortosa 2008:262-263 [trad.nossa]) <span class="cite">&mdash; Tortosa</span></div></div></blockquote></p>
<p style="text-align: justify;">A informatização da sociedade provoca transformações culturais que se vão manifestando no comportamento dos indivíduos. As comunidades virtuais alteram o sistema simbólico na sua qualidade de instrumento de comunicação entre pessoas e grupos sociais. Esta nova reconfiguração sociocultural abre espaço para o que Pierre Lévy chama de <em>Ciberespaço</em>. Este novo meio de comunicação, que surge da interconexão mundial de computadores, engloba não apenas a infra-estrutura mundial da comunicação digital, mas também o universo de informações que ela abriga e os seres humanos que navegam e alimentam esse universo (Silva,2007). O ciberespaço representa um estágio avançado de auto-organização social, ainda que em desenvolvimento, que resultará na inteligência colectiva. Segundo Pierre Lévy, este novo espaço do saber (conhecimento e produção contínua de subjectividade) configura o <em>Quarto espaço antropológico</em> (Terra, Território, Grupo Social e Ciberespaço).</p>
<p style="text-align: justify;">Com o crescimento do ciberespaço desenvolvem-­?se um conjunto de técnicas – materiais e intelectuais –, de práticas, atitudes, modos de pensamento e de valores: a <em>Cibercultura</em> (Silva, 2007). Este conjunto de fenómenos socioculturais ocorrem no interior do ciberespaço ou estão com ele relacionados. Criam-se, desta forma, comunidades virtuais que se formam a partir de interesses comuns, seja entre pessoas ou organizações, e que podem ter várias formas de expressão: “A compreensão do ciberespaço pressupõe que este não seja visto como um objecto no sentido estrito do termo, mas sim como um espaço frequentado por <em>personas</em> que constituem localidades e territorialidades” (Silva, 2007:208). Richard MacKinnon(1) define <em>personas</em>como identidades construídas pelas pessoas no interior do ciberespaço. Esta virtualidade que parece subjacente a tal construção subjectiva, e normalmente associada a uma não-realidade, é uma concepção pouco adequada para se pensar o ciberespaço. O virtual não se opõe ao real. Complementa-o e transforma-o, pois subverte as limitações espácio-temporais que este apresenta. Eis-nos perante um “nível” de realidade “(&#8230;) substancialmente específico e diverso dos restantes, dentro do qual se desenvolvem fenómenos peculiares, que devem ser abordados com um referencial teórico adequadamente desenvolvido ou adaptado” (Silva,2007:209). Esta antropologia do ciberespaço é então encarada como mais um aspecto de outras realidades. O novo conceito de <em>ciberantropologia </em>reside no espaço da rede e configura uma realidade social constituída por um conjunto de actividades coordenadas e construída por diversos interlocutores dispersos pelo espaço físico. Uma multiplicidade de sujeitos envolvidos que aponta para uma convergência de actividades com o objectivo de alcançar um sentido comum:</p>
<p style="text-align: justify;"><blockquote><div class="widget_darkbg"><div class="widget_lightbg"> As comunidades virtuais são agregações sociais que emergem da Rede quando existe um mínimo suficiente de pessoas, em discussões suficientemente longas, com suficientes emoções humanas, para formar teias de relações pessoais em ambientes virtuais, alterando de algum modo o EU dos que nela participam (Rheingold cit. por Silva, 2007: 211)  <span class="cite">&mdash; Rheingold</span></div></div></blockquote></p>
<p style="text-align: justify;">À primeira vista poderá o termo <em>comunidade virtual</em> sugerir uma comunidade que só existe no ciberespaço. Numa análise mais lata, implica uma nova forma de ligação que passa a existir no meio de – ou entre – comunidades no espaço geossocial real, ligando-as e estendendo-as, trazendo mesmo comunidades reais para o seu contacto. Nesse sentido, a cultura de redes mediadas por computadores representa uma analogia do mundo: “(&#8230;) um lugar onde se constrói um espaço topográfico (<em>interface</em>), com lugares (<em>sites</em>) e caminhos (<em>paths</em>) que irão ser percorridos, até se chegar ao destino” (Silva, 2007:211).</p>
<p style="text-align: justify;">À luz desta <em>quarta dimensão</em> – ou espaço – <em>antropológica</em>, questionar-se-á a emergência de um novo tecido social possuidor de mecanismos criativos mais diversificados e enriquecidos pela partilha da informação a nível global. Se a cibercultura se torna o tão desejado motor de uma nova sociedade que se alimenta do virtual para, de uma forma mais rápida e instantânea, operar mudanças culturais tendentes à dissolução de uma cultura elitista, pode a criatividade estar ao alcance de todos?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>CIBERCULTURA E PROCESSO CRIATIVO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Existe um sentimento, consensual, que emerge de todas as revoluções tecnológicas operadas na última década: o sentimento de inovação. Esta relação causa/efeito, despoletada pelo enorme <em>melting pot</em> em que se transformou o mundo, deverá consolidar-se no espaço público, ou pelo menos deseja-se que assim seja. Poderá a cibercultura, como plêiade de redes de relações, despertar uma emergência de novos valores, um sentimento de multi-pertença que tenha efeitos no tecido económico e social da cidade convencional?</p>
<p style="text-align: justify;">A <em>classe criativa</em> de Florida é uma classe onde cabe a ciência e a engenharia, a arquitectura e o design, a educação e as artes, a música e o entretenimento (Florida, 2002). Logo, a classe criativa é multi-disciplinar, reticular e flexível. O ambiente propício para que possa emergir é o que proporcione espaço para uma criatividade assente na diferença e no mérito. Para tal, deverá observar-se a existência de três esferas fundamentais: tecnologia, talento e tolerância. Contudo, as grandes mudanças, segundo Florida, produzem-­?se não somente através da inovação, mas também através dos movimentos massivos das pessoas (Florida, 2010). O talento deverá, assim, circular entre lugares, para que dessa forma se incentivem potenciais cenários criativos. Esta postulada circulação destaca a importância, para além do já referido, de uma quarta esfera que se revela fundamental no âmbito da presente reflexão: o território. A cidade surge como espaço privilegiado para a proliferação da criatividade, cabendo às indústrias criativas o papel de conseguir a sua necessária implementação, facto que não pode ser dissociado de uma imperiosa agenda mediática que reclame a atenção<br />
da opinião pública, fazendo com que o seu espaço seja cada vez mais um espaço de valor no seio de uma sociedade assente no paradigma da informação.</p>
<p style="text-align: justify;">A mobilidade surge então como uma premissa de extrema importância para uma reciclagem criativa das cidades. De que forma pode a cibercultura fomentar uma mobilidade que seja transferível do universo físico para o virtual, sem perda da sua eficácia? Como dito por Rheingold, são agora as comunidades virtuais quem formam as teias de relações pessoais alicerçadas em interesses comuns, e onde a criatividade desempenha um papel determinante. Richard Florida enfatiza o papel determinante das novas tecnologias: “Ao mesmo tempo, as ideias podem viajar por todo o mundo quase instantaneamente, nas auto-estradas digitais [...] Um simples carregar de tecla pode despoletar a troca de <em>insights</em> e criatividade entre sociedades, e esse fenómeno único revolucionou o modo como vivemos” (Florida, 2010:156 [trad.nossa]).</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/wall_1417.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-176" title="wall_1417" src="http://cibermundos.net/wp-content/uploads/2011/09/wall_1417-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A EMERGÊNCIA DA CIBERCIDADE</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Há uma vantagem implícita no modelo económico baseado numa forte componente criativa, logo imaterial, referido por Florida: a aposta no aproveitamento de recursos locais com base em processos criativos de transformação. O mundo torna-se necessariamente plano. Vivemos “(&#8230;) a força dinamizadora na era da <em>Globalização 3.0</em> – a força que lhe imprime um carácter único – [que] é a recém-descoberta possibilidade de os indivíduos colaborarem e competirem globalmente” (Friedman, 2010:19-20). O nascimento da <em>cibercidade</em> é profundamente concomitante com a planície em que nos encontramos, potenciando a convergência entre as novas tecnologias digitais de comunicação e informação e a estrutura urbana clássica onde se deve produzir a inovação: dá-se, desta forma, o aparecimento de uma “segunda ordem artificial”. Nesta nova ordem cabem as novas redes telemáticas e as tecnologias que delas derivam, como a Internet, as redes sem fios, os sistemas de comunicação móveis, e outras possibilidades cibernéticas que alteram profundamente a dinâmica social. Contudo, estas subsistem na consistência material da estrutura urbana(2). Partilham o espaço com as redes de transporte, saneamento, energia e comunicação convencional, recebendo um estatuto híbrido que junta o físico e o imaginário (Westwood &amp; Williams, 1997). Zygmunt Bauman(3) designará esta nova ordem, chamando-lhe a “modernidade líquida” (Bauman, 2000).</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos então pensar – ou desejar – que nas cibercidades os espaços possam ser complementares, atribuindo-se ao espaço físico a forma mais usual de existência de uma sociedade. Para o debate em curso, gostaríamos ainda de acrescentar a significativa influência da utilização dos dispositivos electrónicos na promoção de manifestações no espaço físico. Casos de manifestações políticas mobilizadas através da rede, encontros reais entre cidadãos fomentados pelas salas de <em>chat</em> ou comunidades virtuais, compras <em>online</em> que despoletam fluxos de mercadorias que circulam pelas redes viária, ferroviária, aérea, são sinais mais do que claros da existência de sinergias que se estabelecem entre espaço virtual e espaço de lugar. Devemos tirar partido de uma nova estrutura rizomática que permita a horizontalidade e o fluxo livre de informação, o que faz da cibercidade uma cidade contemporânea, dotada de uma potente gama de redes de comunicação, que não prescinde dos grandes centros como pólos irradiadores das inovações e concentradores de capital e trabalho. Essas redes têm incentivado o crescimento de comunidades ligadas por afinidades temáticas, concorrendo para um mútuo enriquecimento e para um consequente aumento da capacidade criativa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>UM NOVO PARADIGMA ECONÓMICO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nas sociedades industriais, o grau de inclusão era aferido pela posse de recursos materiais. Na sociedade da informação, são os recursos intelectuais quem fala mais alto neste domínio. Aqui levanta-se uma das questões anteriormente subentendida: a classe criativa requer um juízo independente e um alto nível educacional (Florida, 2002). É nesta nova configuração, em que a partilha assume decididamente o lugar chave de toda a estrutura económico-social, que a cibercultura se afirma como indispensável para o aumento dos níveis do indicador chave da competitividade no século XXI: a inovação. Neste contexto, a cibercultura contribuirá para uma cultura da criatividade, abrindo portas a novas formas de aferição da criatividade não-tecnológica e análise do processo da criatividade empresarial no seio do sector criativo e cultural.</p>
<p style="text-align: justify;">Na nova geografia económica, há novas formas de consumo que beneficiam desta troca intensiva de ideias e discussões que circulam pela <em>Sociedade do Conhecimento</em>. A nova realidade – que assenta em rapidez, customização e valor intangível –, com ciclos de vida dos produtos cada vez mais curtos, especialmente no sector das tecnologias de informação e comunicação, postula uma forte componente inovadora: o mercado postula inovação tanto quanto competência técnica. Se para inovar é necessário investir em laboratórios de pesquisa e desenvolvimento (R&amp;D), estes podem existir numa rede telemática, sendo posteriormente transferidos para o mercado. Através da reconfiguração espácio-temporal, a colaboração existente no seio da comunicação em rede pode beneficiar de uma partilha de custos importante, e, simultaneamente, introduzir novas formas de organização das indústrias que valorizem a liberdade, a autonomia e o pensamento divergente. Somos assim colocados, definitivamente, no domínio das Indústrias Criativas.</p>
<p style="text-align: justify;">Se dedicarmos alguns minutos da nossa atenção e reflectirmos sobre o conceito de bens na pós-modernidade – ou na sociedade pós-material –, verificaremos que, hoje, é o conteúdo expressivo – estético, simbólico ou social – que determina o sucesso da indústria. Assim, a experiência como novo tipo de <em>output</em> económico vem tornar clara a importância do espaço virtual como fonte de validação dos produtos: o produto será validado pela comunidade e pelas redes sociais. Como Jean Baudrillard refere, a tecnologia já não é capaz de fazer perceber o valor de um objecto (Baudrillard, 2010). Existe um aspecto não-racional nas necessidades dos consumidores que faz com que o objecto adquira um significado correlacionado com o ambiente cultural ou as aspirações sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Regressamos a Florida para nos determos sobre a nova dimensão do <em>valor-­ símbolo</em>. Para esta nova dimensão concorrem artistas, publicitários, <em>designers</em>, <em>marketers</em>, media e cultura. É através da criatividade que a nova economia se desenvolve, provocando um interesse massivo nos consumidores. Cada vez mais as empresas recorrem aos serviços de <em>trendspotters</em>, antropólogos, sociólogos e psicólogos. As funções criativas nas empresas assumem importância capital, apoiadas em sectores como Design, Marketing, Publicidade e Comunicação. Esta nova realidade vem deixar claro que a classe criativa é indispensável na nova economia, reforçando a importância de uma nova cultura de índole global para a sua configuração: a cibercultura.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>CONCLUSÃO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Há uma nova forma de economia na contemporaneidade: a economia de partilha. A produção de riqueza deixa de ser o fim último da sociedade para dar lugar à criação de laços sociais. Ainda que esta constatação possa pecar por simplificadora, a verdade é que o dinheiro deixa de ser a principal moeda de troca de algumas relações. Assistiremos, porventura, à passagem de um regime baseado na propriedade para um regime baseado no acesso. Em virtude das preocupações de sustentabilidade, a acumulação de bens deixa de fazer sentido. O economista Jeremy Rifkin não estará muito longe da verdade quando diz que o mercado está agora nas redes (Rifkin, 2001). A produção industrial é substituida por produção cultural baseada no marketing de experiências culturais.</p>
<p style="text-align: justify;">O novo hiper-capitalismo é moldado pelo turismo, entertenimento, parques temáticos, moda, bem-estar, desporto, produtos culturais e, não menos importante, Internet. Na era do acesso assistimos à mercantilização do entertenimento e ao marketing dos recursos culturais. A Internet, com cerca de 1,5 biliões de utilizadores, é a “meca” da economia do acesso e da partilha. A partilha de interesses faz-se agora no Facebook, no Twitter e no Youtube. A partir deste novo sentimento de pertença a grupos, a indústria precisará de encontrar novas formas de interacção, abrindo-se, desta forma, o espaço para a criatividade de base cultural como núcleo do novo paradigma.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a previsão de Rifkin estiver certa e a “era do acesso” se traduzir na mercantilização do entertenimento, valerá a pena olhar para o sector criativo como fonte de inspiração. Na “Globalização como Cultura”, é esta última que proporciona o modelo para a produção de bens. É a classe criativa, que trabalha nas Indústrias Criativas, que tende a possuir um entendimento desenvolvido da importância dos signos, símbolos, emoções e sensibilidade estética. A capacidade de construir comunidades é uma característica essencial da nova economia. Esta capacidade depende enormemente da criatividade e da cultura. E haverá melhor local para procurar criativos imbuídos deste novo espírito empreendedor do que na própria cibercultura?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas de Rodapé</strong></p>
<p>(1) Richard C. MacKinnon é professor da Universidade do Texas, em Austin, e dedica-se ao estudo de comunidades e comunicações mediadas por computador.</p>
<p>(2) O espaço de fluxo caracteriza-se pelos espaços físicos constituídos pelos cabos, servidores, routers, hubs, e outras infra-estruturas necessárias para o fluxo das comunicações.</p>
<p>(3) Zygmunt Bauman é sociólogo e nasceu em 1925 na cidade de Pozna?, Polónia. Os seus estudos assentam na análise na relação da modernidade com o Holocausto e na pós-modernidade. (Cf. Wikipédia [em linha]. Acedido em 22 de Maio de 2010 em: http://en.wikipedia.org/wiki/Zygmunt_Bauman).</p>
<p><strong>Bibliografia</strong></p>
<p>BAUDRILLARD, J. (2010). A Sociedade de Consumo. Lisboa: Edições 70.<br />
BAUMAN, Z. (2000). Liquid Modernity. Oxford: Blackwell Publishing Ltd.<br />
FLORIDA, R. (2002). The Rise of the Creative Class. New York: Basic Books.<br />
FLORIDA, R. (2010). The Great Reset. New York: Harper.<br />
FRIEDMAN, T. L. (2010). O Mundo é Plano. Lisboa: Actual Editora.<br />
LÉVY, P. (2000). Cibercultura. Lisboa: Instituto Piaget.<br />
NORA, D. (1995). Os Conquistadores do Ciberespaço. Lisboa: Terramar.<br />
SILVA, A. M. P. da. (2007). Ciberantropologia: o estudo das comunidades virtuais. In J. S. RIBEIRO &amp; S. BAIRON (org.), Antropologia Visual e Hipermedia, (pp. 207-­?218). Porto: Edições Afrontamento.<br />
RIFKIN, J. (2001). A Era do Acesso. A Revolução da Nova Economia. Lisboa: Editorial Presença.<br />
TORTOSA, V. (2008). Sujetos mutantes: nuevas identidades en la cultura. In D. R. Lopez &amp; A. S. Cabrerizo (ed.), Literaturas del texto al hipermedia, (pp. 257-272). Barcelona: Anthropos.<br />
WESTWOOD, S. &amp; WILLIAMS, J. (1997). Imagining Cities. Scripts, signs, memory. London: Routledge.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://cibermundos.net/cibercultura/da-cibercultura-as-industrias-culturais/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>The invisible Republic of Internet</title>
		<link>http://cibermundos.net/cibercultura/the-invisible-republic-of-internet/</link>
		<comments>http://cibermundos.net/cibercultura/the-invisible-republic-of-internet/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 16 Sep 2011 10:01:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[Mobilização Cívica]]></category>
		<category><![CDATA[Palestras]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[internet]]></category>
		<category><![CDATA[primavera árabe]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://paulopinto.net/cm/?p=119</guid>
		<description><![CDATA[Recentemente, o mundo viu-se confrontado com as revoluções operadas nos países árabes &#8211; concretamente na Tunísia e no Egipto &#8211; e a discussão sobre o papel dos novos media ganhou contornos mais visíveis. Se, por um lado, a facção céptica desvaloriza o poder mobilizador de ferramentas sociais como Twitter e Facebook, por outro, é estabelecida ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Recentemente, o mundo viu-se confrontado com as revoluções operadas nos países árabes &#8211; concretamente na Tunísia e no Egipto &#8211; e a discussão sobre o papel dos novos media ganhou contornos mais visíveis. Se, por um lado, a facção céptica desvaloriza o poder mobilizador de ferramentas sociais como <em>Twitter</em> e <em>Facebook</em>, por outro, é estabelecida uma relação causa-efeito entre a crescente utilização de novas tecnologias e as revoluções operadas. A <a href="http://www.rashaabdulla.com" target="_blank">Dr. Rasha A. Abdulla</a>, professora associada de Jornalismo e Comunicação de Massas da Universidade Americana no Cairo, realizou uma sondagem em Tahrir Square que pretende, de uma forma científica, estabelecer essa possível ligação.</p>
<p style="text-align: justify;">A investigação de Rasha Abdulla, que conta com uma década de trabalho, já produziu três livros sobre o tema, entre os quais se conta <em><a href="http://www.bookdepository.co.uk/Internet-Arab-World-Rasha-Abdulla/9780820486734" target="_blank">The Internet in the Arab World</a></em>, publicado em 2007. Há uns meses, Rasha Abdulla falou sobre esta questão no <em><a href="http://personaldemocracy.com/" target="_blank">Personal Democracy Forum</a></em>.</p>
<object style="width: 560px; height: 315px;" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="100" height="100" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0">
		<param name="data" value="http://www.youtube.com/v/qDeOdEtmE70" />
		<param name="src" value="http://www.youtube.com/v/qDeOdEtmE70" />
		<embed style="width: 560px; height: 315px;" type="application/x-shockwave-flash" width="100" height="100" src="http://www.youtube.com/v/qDeOdEtmE70" data="http://www.youtube.com/v/qDeOdEtmE70"></embed></object>
<p style="text-align: justify;">Ainda sobre a participação cívica nos novos meios de comunicação de massas, vale a pena ler o artigo de <a href="http://english.ohmynews.com/sub_form/column_list.asp?article_class=9" target="_blank">Ronda Hauben</a>, <em><a href="http://blogs.taz.de/netizenblog/2011/03/16/netizens_egypt_tahrir_square/" target="_blank">Netizens in Egypt and the Republic of Tahrir Square</a></em>.</p>
<h2 style="text-align: justify;"></h2>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://cibermundos.net/cibercultura/the-invisible-republic-of-internet/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

